A imparcialidade tendenciosa.
O que é melhor para a saúde? Um alimento orgânico,
pouco desenvolvido e com aparência rudimentar, ou um produto grande e bonito, cultivado com o uso
de agrotóxicos e modificado geneticamente? Quem conhece um pouco de saúde sabe
que a resposta é uma só: o produto orgânico. Mas para o leigo, que compra em
supermercado, o que importa é o preço, o tamanho e o visual. Acaba comprando
gato por lebre. Qualquer semelhança dessa situação com a política ou outras
atividades ligadas ao comportamento humano não é mera coincidências. As
pessoas, pelo menos a maioria delas, baseiam suas opiniões e atitudes às
aparências. E este é o principal motivo dos seus erros e equívocos. Olham a
embalagem e não a qualidade do produto. Falta-lhes informação adequada.
Faço essas referências para chegar ao assunto que
me levou a escrever este artigo. As críticas feitas através da imprensa pelo pagamento de
diárias ao presidente do STF, Joaquim Barbosa, a fim de que ele realize
palestras na Europa. E a principal crítica é de que elas acontecerão durante o seu
período de férias. Isso significa rasgar um travesseiro de penas em meio a uma
ventania. Explico. Tudo o que foi divulgado leva a pensar que Barbosa pretende
usar dinheiro público para atender interesse pessoal, estando de férias. Aí,
porrete no Barbosa. De tudo que é lado. Da imprensa, da OAB e especialmente do
PT. Este último por razões óbvias. A ponto de comparar as viagens do presidente do STF com as de
Renan Calheiros, estas sim, usadas para fins políticos e pessoais, como implante de
cabelo.
Passado o impacto inicial, sabe-se agora que
Joaquim Barbosa, para realizar as palestras, irá interromper as férias. O que
justifica a utilização das diárias pagas pelo STF. E outra. Que sua
participação é oficial, representando a suprema corte brasileira. Em Paris, ele
falará sobre influência da publicidade das sessões
do Supremo, transmitidas ao vivo pela TV Justiça, na racionalidade das decisões
do tribunal. Em Londres falará sobre o funcionamento do STF, em colóquio
organizado pelo King’s College de Londres. Tudo dentro da maior legalidade.
E agora? Como catar
todas as penas espalhadas? Não tem como! Bater em Barbosa indevidamente, mais
do que uma injustiça com o justiceiro, como ficou conhecido pelos brasileiros, é
um ato covarde. Que arranha não apenas a sua imagem, mas principalmente a
credibilidade da Justiça brasileira. Óbvio, se nem o presidente do STF é
confiável, como acreditar nos demais integrantes do poder judiciário? Tudo isso
para quê? Melhor, por quê?
Várias são as
possibilidades. Cito algumas que, no meu entendimento, influenciaram nas
críticas que hoje se sabe, indevidas. A primeira é o ciúmes e o preconceito, de
ver um negro na presidência do STF. E bem sucedido. A ponto de ser lembrado espontaneamente
como candidato à presidência da República. Depois, por vingança. Do PT e dos
mensaleiros presos. Para quem não ficou sabendo, a filha de José Genuíno foi a
primeira a condenar Barbosa pelas viagens. E, finalmente, a demagogia da mídia
de tentar provar sistematicamente sua independência e sua isenção crítica. Se algo está
errado, nem que seja o presidente do STF, tem que ser crucificado. E aí dê-lhe
aplicar a velha tática do bate primeiro (faz virar notícia) e explica (mesmo que
tenha que se retratar) depois.
Neste último caso, a destruição da imagem de uma
pessoa é considerada mero acidente de percurso. Não é! Ninguém tem o direito de
ferir a honra de um inocente. Nem mesmo a imprensa. Existe uma distância muito
grande entre neutralidade e imparcialidade, embora as palavras sejam sinônimas.
Neutro é ser justo. Imparcial é não ter preferência. No caso de Joaquim Barbosa a preferência foi a
notícia e não a verdade. Inadmissível. Até mesmo no Brasil. O presidente do
STF, por sua atuação e competência, é admirado não apenas no Brasil, mas também
no exterior. É o juiz que provou que no Brasil não é só ladrão de galinha que
vai para a cadeia. E que um negro pode muito. Até mesmo ser presidente da
suprema corte do seu país e, quem sabe um dia, presidente da República. E isso
é muito mais importante do que vender jornal ou conquistar pontos no Ibope.
Ao tentar mostrar sua imparcialidade tendenciosa, a
imprensa contribui para o alcance de objetivos escusos, de pessoas e
instituições pouco confiáveis, onde o que mais importa é o interesse pessoal,
financeiro ou político, e não o interesse público. Voa Joaquim Barbosa. Cada
vez mais alto e mais longe. Prova que o Brasil tem solução. Ao contrário do que
muitos pensam, falam ou escrevem.

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