A batalha perdida de Fortunati.
O que o prefeito José Fortunati pretende ao disparar contra o Sindicato dos Rodoviários de Porto Alegre e contra as empresas de ônibus que atendem as linhas urbanas da capital? Melhorar a qualidade do serviço? Não. Até porque as condições da frota e do atendimento prestado pelos trabalhadores do setor já deixaram, faz algum tempo, de circular pelos espaços da mídia. Então o que é?
Primeiro é preciso ver o que antecedeu a crítica do prefeito. A curto prazo, foi o dissídio dos trabalhadores do transporte coletivo, que levou a categoria a paralisação, e que fez com que as empresas condicionassem o reajuste dos salários ao aumento da tarifa. A médio prazo, foi o temor da retomada dos protestos promovidos pelo Bloco de Luta pelo Transporte Pública, que aterrorizaram os porto-alegrenses no ano passado, e que tiveram como causa o reajuste das passagens dos ônibus da capital. E a longo prazo, foi a manutenção de um sistema de transporte antigo e viciado, que acabou encarecendo as tarifas, e que há muito deveria ter sido substituído ou pelo menos aprimorado.
Em meio a todas estas questões se sobressai a falta de gestão e de planejamento. Por que não abriram licitação para, através da concorrência, melhorar o serviço? Ou, por que não modificaram a planilha de cálculo das tarifas, barateando seus custos? Por que não qualificaram a fiscalização do cumprimento dos horários e a superlotação dos veículos? Por que não investiram mais em obras viárias que permitiriam maior fluidez do trânsito e na busca de alternativas para o transporte de massa, como por exemplo o metrô?
Com tantos por quês fica fácil entender a manifestação de Fortunati de que sindicato e patrões estariam associados visando um só interesse: o financeiro. É ai a explicação para a greve. O prefeito sabe que a única saída para o problema é o reajuste da tarifa. Só isso permitirá que as empresas reajustem os salários dos trabalhadores do transporte coletivo e continuem investindo na ampliação e qualificação da frota de ônibus. Óbvio, pois não há tempo para a implementação das providências que deveriam ter sido tomadas e não foram.
Mas aumentar o preço da passagem implica num elevado custo social. E é essa a conta que Fortunati se nega a pagar. Como sabe que isso será inevitável, ele procura “tirar o seu da reta”. Denuncia, esbraveja, ameaça, para no fim ceder e dar o aumento. Tudo isso para passar a ideia de que ele não queria fazer o reajuste mas foi obrigado, diante das circunstâncias. Puro interesse político.
Envolvida em tudo isso, tal qual o marisco, está a população de Porto Alegre. Que fica sem transporte para ir ao trabalho e voltar para casa. Que sofrerá, direta ou indiretamente, com os protestos de rua que certamente serão realizados por conta da transferência do reajusta para a tarifa. Tudo isso me lembra o personagem do inesquecível Chico Anísio, o Justo Veríssimo, que tinha como jargão a expressão “eu quero é que o povo que se exploda!”. E mais ou menos isso que está acontecendo em Porto Alegre.

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