Mortes
previsíveis.
Zero Hora
Não precisou ser vidente para saber que a forma como a bicicleta,
enquanto veículo de transporte e não de passeio, foi incluída no caótico
trânsito de Porto Alegre traria problemas aos seus usuários. Antes mesmo da
construção das ciclovias já se sabia das dificuldades no enfrentamento entre
ciclistas e motoristas. Quem não lembra do episódio ocorrido em fevereiro de
2011 na rua José do Patrocínio, na Cidade Baixa, onde um motorista transloucado
atropelou e feriu 15 ciclistas do movimento Massa Crítica pelo simples fato de
estarem atrapalhando a sua circulação naquela via?
Pois a resposta da prefeitura foi a construção de ciclovias. Onde? Nas
principais ruas da capital. Onde? Ocupando a faixa da esquerda da via. Ou seja,
jogaram os ciclistas em meio aos veículos nas vias mais movimentadas da cidade.
Pode isso? Por que não escolheram um traçado alternativo e menos perigoso? E
outra. Por que não realizaram campanhas de educação e orientação específicas
para o trânsito das bicicletas? Sem estas providências e sem estas precauções
só poderia dar no que deu: a morte de ciclistas por atropelamento de veículos.
Se não sabiam como fazer para prevenir este tipo de acidente por que não foram
buscar experiência nos países onde a bicicleta é utilizada como meio de
transporte individual? O que não pode é ficar lamentando passivamente as
mortes. Algo tem que ser feito para evitar que outras aconteçam. Com urgência.
Não se brinca com a vida. Mesmo que seja a dos outros.
Reproduzo, abaixo, artigo que publiquei em 13 de dezembro de 2013. Parece
que estava adivinhando.
Ciclovia ou
vale-tudo?
Em época em que ser moderno é regredir a
costumes do passado, como consumir produtos orgânicos e andar de bicicleta, a
construção de ciclovias em Porto Alegre começa a apresentar um cenário de
confronto até antes inimaginável. Refiro-me a disputa pelo espaço, pintado no
solo de um vermelho cor de barro, entre ciclistas, motoristas de carros e
pedestres.
Não que eu seja contra a circulação de
bicicletas nas vias urbanas, mas a cada dia que passa fica constatado que a
implantação das ciclovias porto-alegrenses não pode ser enquadrada no conceito
popular de “antes tarde do que nunca”.
Nossas autoridade em circulação viária deviam
(caso houvesse um adequado planejamento urbano) ter previsto que o crescente
aumento no volume de veículos pela capital dos gaúchos, a exemplo do que
acontece nos grandes aglomerados urbanos, iria resultar em enormes congestionamentos
e que haveria uma briga por espaço entre pedestres e veículos de duas ou quatro
rodas.
É o que está se vendo. Premidos pela escassez de
obras viárias de grande porte (túneis, viadutos, passarelas, perimetrais,
estacionamentos públicos, etc), de “áreas azuis”, obstáculos físicos como
conteineres de lixo e caçambas de entulho, e de um transporte coletivo
eficiente, os motoristas da capital se viram, repentinamente, espremidos pelas
ciclovias. Óbvio, as ciclovias passaram a ocupar uma faixa de circulação
habitualmente utilizada por carros.
E é esse espaço que começa a se transformar numa
legítima “faixa de Gaza”. Sem espaço para estacionar, motoristas desobedecem a
primazia dos ciclistas e estacionam sobre a ciclovia. Pedestres que praticam o
seu cooper diário, por se sentirem mais seguros, utilizam a ciclovia como pista
de corrida. Mas e os ciclistas, com ficam? Ficam furiosos. E com razão.
Mas é ai que reside o problema. Quem veio
primeiro? O pedestre, a bicicleta, ou o carro? O pedestre, claro. Mas adianta
remar contra a maré se a instituição veículo motor já é uma realidade? Do jeito
que está, não. Então o que fazer? Exigir que a Eptc fiscalize? Bem, ai vem a
velha história de que os fiscais não podem ser onipresentes. Então é preciso
investir em educação? Sim, sim, sim... Mas ai o caminho é mais complicado e
daria para muitos outros artigos.
O certo é que o problema está nas ruas. E as
brigas já começaram. Algo precisa ser feito, sob pena de transformarmos as
ciclovias num grande ringue a céu aberto. Ou pior, num caso de vida ou morte.