A
arremetida do PSB.
Com
todo o respeito ao trocadilho, que não se propõe atrevido, mas
ilustrativo, a morte de Eduardo Campos fez o PSB literalmente
arremeter o rumo da sua campanha. Se já não era fácil conciliar o
arranjo político montado para compor com a Rede de Marina Silva e
atingir a condição de terceira via da eleição, as tratativas para
montar uma chapa póstuma expuseram uma estrutura que por pouco não
se caracterizou como fisiológica e emocional ao invés de
pragmática.
A
começar pela rapidez com que Marina foi confirmada como substituta
de Eduardo Campos. Tanto no que se refere ao convite como a
aceitação. Talvez ela tenha considerado a tragédia de Santos como
uma providência divina para concorrer à presidência da República,
em conformidade com a explicação que deu para a sua ausência no
fatídico voo.
Outra
situação peculiar foi a atitude adotada pela família Campos. Tanto
antes como depois do enterro. Uma viúva com nítida depressão
traumática, que a impediu de chorar, vestiu os filhos com camisas
com expressões políticas pronunciadas pelo finado esposo,
colocou-lhes chapéu de palha, incentivou-os a pratica de atitudes
ideológicas, como braços erguidos e punhos cerrados, e adotou uma
postura de protagonista de ocasião.
Sem
nenhuma participação político-partidária expressiva, apesar de
ser filiada ao PSB há bastante tempo, Renata Campos surfou nos
últimos dias com a possibilidade de ser a vice na chapa de Marina
Silva. Com declarações dúbias, a viúva parecia mesmo disposta ao
desafio, o que provocou um intenso debate nacional sobre a possível
intenção. Ainda bem que sua consciência ou alguém com influência
sobre ela, fez com que a razão se sobrepusesse a emoção. Desistiu
da possibilidade de ser vice de Marina. Não sem antes ungir sua
benção ao nome escolhido, o gaúcho Beto Albuquerque.
Pois
bem, passada a fase traumática, é hora do PSB voltar à realidade.
Afinal, já se passaram mais de um mês de campanha e a propaganda
eleitoral gratuita até já iniciou. Ao que tudo indica, a troca de
Eduardo por Marina terá maior aceitação popular. Não apenas pela
pesquisa extemporânea realizada durante o velório do ex-governador
de Pernambuco, cujos resultados servem para análises também
momentâneas e onde Marina aparece como vencedora da eleição no
segundo turno, mas principalmente pelo seu desempenho na eleição de
2010, onde recebeu cerca de 20 milhões de votos, algo próximo a 20%
do total de eleitores votantes. Para se ter uma ideia, isso
representa mais do que o dobro do percentual recebido por Eduardo
Campos na última pesquisa Ibope (9%).
Mas
como eleição não é uma ciência exata, matemática, a bagagem
política e comportamental de Marina tende a ser acrescida pelos atos
praticados nos últimos quatro anos, o que certamente terá
influência no seu desempenho como candidata cabeça de chapa. E ai
entra a sua obstinação pela criação da Rede Sustentabilidade, sua
radicalização ambiental e oposição ao agronegócio, sua
contrariedade ao aborto e ao casamento gay, e outras mais.
O
certo entretanto é que seu papel de protagonista já está
garantido. Com ela na disputa a realização de um segundo turno é a
tendência mais natural. Se terá condições de se apresentar como
opção concreta e viável para vencer a eleição aí é outra
conversa. Vai depender do seu desempenho enquanto candidata. E contra
isto pesa o seu pouco tempo de televisão.
Mas em
contrapartida nenhum outro concorrente tem o inventário emocional
quer ela possui, herdado pela morte de Eduardo Campos. Caso esse
fator seja decisivo para que ela se sagre vencedora, poderá ser
considerado um acerto da previsão do filósofo francês, Augusto
Comte, de que “os vivos são sempre e cada vez mais governados
pelos mortos”. Ou como Marina gosta de dizer, “uma providência
divina”.




