A inflação ameaça. Viva!
Então não enlouqueci.
Graças a Deus! Não enlouqueci. E nem emburreci. Muito menos me
alienei. Cheguei a essa conclusão lendo os jornais desta sexta-feira. Na Zero
Hora, editoria de Economia, é informado que a revista britânica The Economist
chamou de “contabilidade criativa” a manobra feita pelo governo Dilma para
alcançar a meta de superávit primário. Para a revista, se o governo não tivesse
freado os preços da gasolina e do transporte público, a inflação de 2012 teria
chegado “mais perto de 6,5%”, o teto da meta de inflação no Brasil.
Da mesma forma, no Correio do Povo, o economista e coordenador do Índice
de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
(FIPE), Rafael Costa Lima, alerta que a inflação apresenta um cenário de altas
que começa a ficar “delicado”. Segundo ele, o IPC em 12 meses, que em agosto
foi de 4,1%, caminha agora para 5,4%. “Há muita pressão inflacionária no
horizonte com pouca pressão deflacionária”, enfatiza Costa Lima.
Mas o que isso tem a ver com o meu alívio? Tudo. Há meses venho
dizendo para mim mesmo que o aumento dos preços dos gêneros de primeira
necessidade está ocorrendo com uma frequência cada vez maior. Basta circular
pelos corredores dos supermercados para sentir isso. Ou pagar a prestação da
escola privada. Ou pagar um estacionamento. Ou comprar um medicamento numa
farmácia.
Enquanto isso, eu lia, ouvia e via, o governo falar em pibão,
marolinha, e outras firulas mais, para “tranquilizar” a população de que a economia
brasileira não só está sob controle, como o país está em franco
desenvolvimento. Mas como, se os preços não param de subir? Essa dúvida estava
me desestabilizando intelectualmente.
E para reforçar a ideia de que tudo vai bem com a economia, nossas
autoridades públicas saudavam o fato de que cada vez mais pessoas estão
ingressando na classe média, formando uma enorme legião de consumidores de
artigos de luxo, como viagens aéreas, aquisição de imóveis, carros,
eletrodomésticos, etc. O resultado: um crescimento assustador do número de
inadimplentes. É o legítimo caso da realidade superando a ficção.
Pois é ai que reside a minha satisfação, por mais contraditório que
possa parecer. As manifestações da The Economist e da FIPE não apenas
demonstram que eu esta certo na minha sensação de que a inflação estava mostrando
sua cara mas, principalmente, mostra aos brasileiros que é hora de parar com a
euforia irresponsável, e encarar a alta dos preços como um sério problema.
Afinal, se o ufanismo e o saco de benesses do governo ainda seduzem muita
gente, não pode haver ameaça pior para o cidadão do que a volta da inflação. E
exigir medidas que impeçam seu retorno é uma obrigação de cada brasileiro. É o
que pretendo fazer, depois de tirar da minha cara o sorriso de satisfação por
confirmar que não estava louco e nem alienado das maquiagens políticas de
nossos governantes.


