E a marcha, ré?
Tal qual as manifestações de
junho de 2013, os grandes protestos do início de 2015 devem ter os ânimos e a
adesão arrefecidos com o passar do tempo. Pelo menos é o que indica a redução
do número de manifestantes no protesto pro-impeachment de Dilma Rousseff, realizado
dia 12 de abril, na comparação com o anterior, efetuado em 15 de março. Alheio
a esse fato o Movimento Brasil Livre, que se auto intitula promotor das
passeatas anti-PT, marcou um novo protesto, desta feita em Brasília, denominado
“Marcha pela Liberdade”. A escolha da capital federal baseia-se, com certeza,
na estratégia da logística. Se não estão conseguindo reunir multidões em
diversos locais, centrar os protestos numa única cidade representa a
possibilidade de uma visualização massiva de maior amplitude.
Mas o que leva essas iniciativas
extemporâneas à oscilação quantitativa, destoando de outras manifestações de
grande porte, bem sucedidas, como o das Diretas Já e Fora Collor? Ao meu ver,
por várias razões. A primeira pela falta de um foco, uma meta, um objetivo, uma
causa definida. E isso pode ser comprovado pelos cartazes exibidos nos
protestos. Uns pediam o impeachment, alguns clamavam pela volta do regime
militar, outros o fim da corrupção, a reforma política, etc.
Coerente com esse caos temático,
que segundo o MBL se propõe organizado, a entidade divulgou sua pauta de
reivindicações para o evento de Brasília. Dez itens! Desde o impeachment, a
redução do número de ministérios, a CPI para o programa Mais Médicos, até a
concessão de asilo político à Leopoldo Lopez, principal figura da ala mais radical da oposição
venezuelana.
A outra razão diz respeito ao impedimento da
participação de partidos e de políticos nas manifestações. Pelo menos tidos como
de esquerda, já que parlamentares da direita, especialmente os mais radicais, tem
sido acolhidos pelo movimento. Ora, não existe democracia sem partido político.
Isso é primário. São eles (os partidos) que representam a diversificação da
sociedade e o pensamento de cada segmento da população sobre como o país deve
ser governado. Ou será que o MBL se julga no direito de representar a população
como um todo?
Além disso, todo movimento popular que se diz democrático
precisa de líderes que o representem, orientem e comandem. Foi assim na
mobilização pela Diretas Já, capitaneado por Ulysses Guimarães, o Senhor
Diretas, e apoiado por grandes nomes da política nacional, como Tancredo Neves,
Leonel Brizola, Lula, FHC, Luís Carlos Prestes e outros mais. Da mesma forma, os
bem sucedidos protestos do Fora Collor, que apesar de terem a iniciativa dos
movimentos estudantis (UNE, UBES, DCEs, Centros Acadêmicos e Grêmios Livres)
foram apoiados e endossados por instituição de grande credibilidade, como a
OAB, a ABI e a CUT. Ou seja, foram iniciativas que tiveram voz, face e causa.
Pois bem, e quem lidera o Movimento Brasil Livre? Se
podemos considerar como líder aquele que tem maior exposição midiática, então é
Kim Kataquiri. Um blogueiro de 19 anos que largou a universidade no primeiro
ano do curso de Economia e que soube aproveitar seu domínio das redes sociais (Internet)
e o clima de insatisfação popular gerado pelas denúncias de corrupção
apresentadas pela Operação Lava-Jato, para reavivar as grandes manifestações de
junho de 2013. Longe de ser um messias, o garoto, neto de japoneses, está mais
para oportunista do que qualquer outra coisa. Sua pouca expressividade sequer
rendeu-lhe um perfil no Wikipédia, que dirá a alcunha de líder nacional. Sua
rápida ascensão, por outro lado, comprova o descrédito da classe política e dos
partidos. O que é deveras preocupante.
Claro que toda e qualquer iniciativa popular de grande
proporção precisa ser considerada. Afinal, se todo poder emana do povo e em seu
nome deve ser exercido, querer que a participação da sociedade fique restrita
apenas ao comparecimento às urnas é fazer pouco caso do verdadeiro significado
e da importância da cidadania. E as recentes mobilizações populares, embora com
resultados ainda pouco expressivos, tem mostrado que o brasileiro não aceita
mais a condição de espectador do seu destino. Quer ser agente da transformação.
E isso é alvissareiro. Falta-lhe, entretanto, organização e representatividade.
Em outras palavras, causa e líder. Mas um líder que represente à todos e não
apenas uma parte. Sem isso o futuro das marchas terá apenas e tão somente um
direcionamento: à ré. Ou como disse o gaúcho ao ver a tosa de um porco, “muito
grito e pouco pelo”.

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