sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

As razões de Tarso para 
não concorrer à reeleição.




Se forem verdadeiras as condições exigidas pelo governador Tarso Genro (a dúvida fica por conta do seu hábito de não cumprir com o que diz) de que se não tiver a primazia do palanque de Dilma no RS e se a renovação da dívida do Estado para com a União não for aprovada pelo Congresso Nacional, não irá concorrer à reeleição, está confirmado o seu desinteresse pela permanência à frente do Piratini. E mais, que não acredita que o Rio Grande do Sul, por si só, tenha condições de superar a grave crise financeira que está impedindo o seu desenvolvimento.

O que Tarso não diz é que nada disso foi considerado na campanha eleitoral de 2010, que lhe deu a inédita vitória em primeiro turno. Naquela ocasião a situação do erário público estadual já era crítica. Da mesma forma, a julgar pela propaganda governamental, ele não reconhece sua culpa no agravamento das finanças públicas, fruto do descumprimento da lei que obriga o pagamento do piso do magistério e os volumosos saques feitos no caixa único do Estado e dos depósitos judiciais.  Isso sem falar nas sedutoras promessas de campanha que nem de longe foram atendidas.

Mas, inicialmente, é preciso duvidar da sinceridade do governador. Senão vejamos: Como alguém que buscou obstinadamente ser governador pode, repentinamente, fazer exigências para tentar permanecer no cargo. Será que pensa que os gaúchos esqueceram que ele impediu (por pressão interna no PT) que o então governador Olívio Dutra concorresse à reeleição? Ou que ele tenha usado os cargos ocupados no governo Lula como palanque para obter vantagens na concorrência pela vaga de governador do RS?

Pois é! De uma hora para outra esse ideal de vida parece ter arrefecido, a tal ponto dele vislumbrar a possibilidade de abdicar do poder estadual. Dessa forma, as exigências realizadas se apresentam como uma imposição para o “sacrifício” da reeleição. Mas Tarso sabe, por que é experiente em política, que é praticamente impossível que Dilma venha a ter apenas um palanque no Rio Grande do Sul. Seria uma imensa incoerência e uma grande ingratidão. Claro, pois se outros partidos além do PT serviram como base de sustentação (inclusive ocupando cargos) do seu governo, como Dilma poderá lhes dar às costas na hora (da eleição) que eles mais precisam de apoio. Se ela fizer isto estará dando um tiro no próprio pé. O esperado é que se apoie na neutralidade.

O mesmo vale para a exigência da renegociação da dívida. Ora, precisou entrar no seu terceiro ano do seu mandato (casualmente véspera da eleição) para que Tarso calçasse definitivamente às chuteiras e entrasse em campo. Antes, o assunto sequer aparecia como prioridade. Pelo contrário, a propaganda governista dizia que tudo estava bem no RS. Bastou às pesquisas mostrarem que a coisa não era bem assim, para que o governador, de repente, descobrisse uma realidade que todos os gaúchos já conheciam. A melhoria do estado estava restrita apenas ao discurso governista.

De tudo o que disse Tarso, no seu pronunciamento de exigências, uma coisa não pode ser contestada. O próximo governador terá imensas dificuldades. Por isso terá que ser um estadista. Alguém com bom trânsito político com todas as siglas, e não apenas com a base governista, que lhe dê condições de firmar um pacto pela superação dos problemas estruturais do Rio Grande, e que seja um eficiente gestor, para oferecer projetos viáveis para o desenvolvimento do estado e para tirar o máximo da máquina pública disponível. E, principalmente, cumprir com a palavra empenhada. E não gastar mais do que arrecada.

Visto sob essa ótica, não há como não concluir que Tarso estava sendo sincero quando declarou que poderia desistir da reeleição. Mas não somente pelas dificuldades externas, mas especialmente pelos seus próprios erros. Quatro anos de governo é um tempo curto para solucionar os graves problemas do Rio Grande, mas todos sabem que a escolha do caminho certo é o primeiro passo para se chegar ao destino que se deseja. E o governo Tarso, até o momento, não conseguir achar o Norte necessário.
                                                                                                            
Para não deixar de falar no aspecto político, que possa  estar influenciando na possível tomada de decisão de Tarso, é preciso lembrar os equívocos realizados na interface do PT com o PSB e com o PDT (e pelas reclamações recentes para que até mesmo com o PTB), que integram a base do governo Tarso. A saída do PSB não se deu apenas pelo apoio à candidatura de Eduardo Campos. Envolveu também atritos constantes de relacionamento, especialmente com o presidente estadual do PSB, deputado Beto Albuquerque, quando ocupou o cargo de secretário estadual de infraestrutura e logística. No caso do PDT, ao que parece, a divergência está restrita a decisão de o partido concorrer com candidatura própria, tese que teve aceitação pela maioria do diretório estadual. O certo é que o PT terá dificuldade na construção de alianças.

Outro fator que talvez esteja influenciando na futura decisão de Tarso é a posição dada pelas pesquisas eleitorais à senadora Ana Amélia Lemos, onde ela aparece como uma candidata com reais condições de vitória. No mínimo de competir de igual para igual, com a vantagem de não sofrer desgaste por ser governo, como ocorre com Tarso.


Por tudo isso é que, desta vez, o alerta dado por Tarso, de que talvez não seja candidato à reeleição, deve ser levado a sério. O cenário em que a declaração foi feita serve muito bem de moldura para o quadro político de 2014. É ver para crer.

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