quinta-feira, 14 de maio de 2015


Minha coluna no Sul 21 desta quinta-feita (14/5):

A verdade sobre as mentiras.



Tem uma máxima no jornalismo que recomenda não confiar em tudo o que é dito por um político. Algo do tipo, dê mais importância ao que ele faz e menos ao que diz fazer.  Lamentavelmente, para eles (políticos), essa cautela tem se justificado. E com uma frequência desconcertante. Uma dos casos mais comentados foi a declaração involuntária, mas sincera, do ex-ministro da fazenda, Rubens Ricupero, via satélite, disse não ter escrúpulos para adotar a prática do “que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Mais isso não significa, utilizando-me do provérbio popular, de que “onde há fumaça há fogo”. A história política recente nos mostrou que essa não é a regra. Que o diga as absolvições tardias do ex-ministro Alceni Guerra e do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro. Por outro lado, foram muitos os casos em a prevenção jornalística se mostrou eficaz. O Mensalão, por exemplo. Por isso, saber identificar o que é boato ou má intenção e o que é fato comprovado tem sido o grande desafio do eleitor brasileiro. Infelizmente este aprendizado tem se dado de maneira traumática para o país, causando prejuízos aos partidos, aos políticos e a própria democracia.

Esse impasse de versões desencontradas teve mais um capítulo nessa semana. Refiro-me a divulgação pela imprensa e redes sociais de uma possível confidência que o ex-presidente Lula teria feito ao então presidente uruguaio, José Mujica, dando conta de que sabia da existência do Mensalão. Tal revelação constaria do livro biográfico do ex-presidente do Uruguai, “Mujica, uma ovelha negra no poder”. Tal episódio, associado a suspeitas de que Lula teria participação ativa no escândalo do Mensalão, espalhadas pela mídia, especialmente pela revista Veja, e pelos opositores do PT, teve a repercussão e um efeito comparável a um rastilho de pólvora. Rápido e explosivo. Afinal, Lula sempre negou o Mensalão. E mesmo que o próprio Mujica tenha desmentido, dizendo que nunca falou desse assunto com o ex-presidente brasileiro, o estrago já estava feito. E vejam só a coincidência, tudo isso aconteceu após Lula ter dito, em discurso no Dia do Trabalho, que a elite brasileira tem medo de que ele retorne à Presidência.

Sob a mesma tese – a retirada do PT do poder – Dilma Rousseff e novamente Lula, são suspeitos de terem envolvimento em outra escândalo, o Petrolão. E mesmo que nada ainda tenha sido comprovado, a suspeição sobre ambos vagueia livre, leve e solta.    Mas interessa ao país esse embate político? Claro que não. O que interessa ao povo brasileiro e isso tem sido dito em todas as grandes manifestações, é o fim da corrupção.  Independentemente de quem seja o autor do delito ou a qual partido pertença. Se o PT hoje é vidraça, durante muito tempo foi pedra. Aqui mesmo no Rio Grande do Sul me lembro do ataque impiedoso do PT a então governadora Yeda Crusius, classificada como chefe da quadrilha que fraudou o Detran, na ruidosa Operação Rodin. Até hoje não foi comprovado o seu envolvimento. Mas os danos a sua imagem e à sua trajetória política foram avassaladores.

É essa cultura do denuncismo irresponsável que precisa ser modificada. Basta de fazer mau uso da boa vontade e da paciência dos brasileiros. Acusar sem comprovação é praticar estelionato de cidadania. O Brasil é sim um país sério e os brasileiros são sim honestos. Só precisa que os representantes dessa gente bronzeada, como diz a letra da música dos Novos Baianos (Brasil Pandeiro), também sejam. Mas colocar todos os políticos sob suspensão ética e moral também é praticar um desserviço à nação. O mesmo ocorre com a eleição de políticos com conduta suspeita. E os inúmeros casos de corrupção atestam isso. Falam tanto em plebiscito para isso, plebiscito para aquilo, por que então não consultam o povo para saber qual a reforma política que ele deseja? Permitir que a classe política decida sobre o seus próprios interesses não me parece uma conduta adequada e nem recomendável diante do atual clima de desconfiança porque passa a categoria.

Da mesma forma a imprensa, que goza de credibilidade popular e preza pela liberdade de expressão, precisa ser mais ciosa com as denúncias que divulga. Nada justifica o sensacionalismo como instrumento de conquista de leitores, ouvintes e telespectadores. Pior ainda se as notícias vierem contaminadas pelo interesse econômicos e/ou ideológico. Igualmente, mentir no exercício do mandato, seja em qual for a esfera de poder, também é atitude condenável e inadmissível. Se é para enquadrar o atual momento político brasileiro na esfera da passionalidade ou da ficção, como infelizmente parece estar acontecendo, que seja através do sentimento de indignação e de inconformidade. Basta de faz de conta. Mentira é mentira. Verdade é verdade. Desde o início dos tempos. Tudo o mais é engodo. Desfaçatez. Mau-caratismo.

Está mais do que na hora de descortinar a verdade que se encontra por trás das mentiras e desnudar as mentiras que se travestem de pseudas verdades. Tudo com a devida responsabilidade e com o necessário rigor. Republicanamente.

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