Onde foram parar boas
notícias?
Dentre as coisas boas que estou
aprendendo (por enquanto são poucas) com o ingresso na chamada terceira idade,
uma delas é a de dizer o que me vem à cabeça. Sem filtros. O máximo que pode
acontecer é me chamarem de caduco. E daí? Um dia, se tivermos sorte, todos nós
seremos efêmeros.
Mas creio que meus rompantes desaforados
tem mais a ver com esperteza do que com senilidade. Meus 60 anos me asseguram
esse direito, embora essa tenra idade possa me classificar como um guri, se
considerarmos o cenário de longevidade crescente apontado pelas estatísticas.
Mas por que estou dizendo isso?
Por que vou usar do meu direito de idoso para dizer que considero um absurdo
essa onda de notícias negativas que assola o país. Não, não sou adepto da
estratégia do avestruz. Procuro manter meus olhos sempre ao nível seguro da
trincheira, observando atentamente o acontece ao meu entorno.
Pois é isso que me inquieta. Não
estou gostando nem um pouco do que estou enxergando. É morte demais para o meu
gosto. E muita ladroagem de dinheiro público também. E o pior é que os projetis
e as malas de dinheiro ainda conseguem perder para o volume de desfaçatez que
temos observados de nossas ditas autoridades.
E aí é que reside a minha tese
desaforada. Eu acho que essa avalanche diária de notícias ruins está
insensibilizando as pessoas e aterrorizando os incautos. Redigidas e editadas
por jovens jornalistas, que desconhecem o que um dia foi andar com destemor
pelas ruas, a pauta da violência para ser a única possível.
O exagero é tamanho que já ter
gente considerando toda essa violência como algo normal. Quantos foram assassinados
neste final de semana? E quantos perderam a vida no trânsito? Prenderam mais alguém na Lava Jato? Tudo na
maior simplicidade, como se fosse uma conversa de bar.
E o pior de tudo isso é que esse
estilo jornalístico continua sendo estimulado dentro dos veículos de
comunicação, seja pelo volume de espaço disponibilizado, seja por render
manchete de capa ou principal matéria nos telejornais e nos noticiosos de
rádio. E rende até premiação, sabiam?
Começo até a achar que tudo isso
é intencional. Só pode? Onde estão as boas notícias? Impossível que não
existam. Então por que não dar vazão à elas? Por que não torná-las prioridade?
Querem ficar na esfera criminal? Pois deem destaque as prisões. Valorizem o
trabalho policial. Com certeza isso terá reflexo na bandidagem. E cá entre nós,
se é para alguém ter medo, que seja o bandido e não o cidadão honesto.
Da mesma forma, estimular a
desconfiança com a classe política também não vai resolver o problema da
corrupção. É tanta notícia ruim envolvendo político que não me surpreende nem
um pouco que em curto espaço de tempo a maioria dos eleitores ou não vai ir
votar ou se for vai votar em branco ou anular o voto. As últimas eleições e as
recentes pesquisas apontam para essa tendência. E o que será da democracia sem
a confiança do eleitor?
Quem sabe não está na hora de
mostrar que tem político gente boa. Com espírito público. Que tem projetos
interessantes para a melhoria do país, dos estados e dos municípios. “Ah, mas
isso não rende notícia”, dirão os jornalistas dependentes da pauta negativa.
Por que não? Fazer do jornalismo um mecanismo de aprimoramento social,
divulgando bons exemplos, é coisa de outro mundo?
Mas não quero ser injusto com os colegas.
Não é apenas nas redações que prolifera o vício da má notícia. Também na área
do entretenimento isso acontece. E muito. Que o diga o sucesso de audiência da
novela “A força do querer”, da rede Globo.
Não gente não é neurose minha. É
fruto de observação. Já tem criança com medo de tudo. De monstros fictícios até
pessoas. Foi para isso que o homem inventou a tal de tecnologia? Para assombrar
as pessoas com informações de tirar o sono? Óbvio que não.
Então por que não usar o
jornalismo e os meios de comunicação como algo aprazível e instrutivo? Se isso um
dia acontecer garanto que não sofrerei de abstinência das más notícias. Notícia
ruim garante interesse por si só. A boa notícia é precisa ser semeada, regada e
distribuída com responsabilidade social, para usar uma expressão da moda.
Se acham que estou dando uma de
velho gagá, sonhando acordado, tudo bem. Como disse, estou pouco me lixando para
aqueles que preferem viver nesse manicômio que se diz civilizado. Vou ficar me
lembrando de como as pessoas já foram um dia livres, leves e soltas e continuar
dando meus pitacos. E você?

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