A pandemia da fome
Chega ano eleitoral e os
candidatos atuam como vendedores de enciclopédia, ofertando combate a
corrupção, geração de emprego, moradia, segurança, saúde, etc. Ocorre que a
maioria da população não precisa de uma Barsa (plano de governo), mas de um
manual de primeiros socorros. Basta olhar a crescente multidão de moradores de
rua. Os cartazes nos cruzamentos com semáfaros com a expressão FOME; a
quantidade de indigentes escarafunchando no lixo em busca de restos de comida
ou algo que possa render algum dinheiro; e muito mais.
Como chamar de cidadão alguém que
não tem um endereço? Como denominar de pessoa alguém que disputa com os animais
restos de comida, ossos por exemplo? Para esse contingente de miseráveis comer
e abrigar a família é a prioridade máxima e saúde e segurança ficam para
depois. Como pensar em futuro para as crianças das famílias empobrecidas quando
a merenda escolar atrai mais que o conhecimento? Como acreditar que através do
voto tudo vai melhorar, quando o traficante local governa para os desvalidos melhor
do que o Estado?
Ah, mas a pandemia ajudou a
piorar esse quadro. Sim, piorou o que nunca deixou de existir, apesar dos
planos de governo dos eleitos que prometem mudar essa realidade mas que na hora
de governar escolhem o caminho inverso, priorizando o Mercado e os mais
abastados. Comida, moradia e educação é o mínimo que os governantes podem e
devem oferecer aos menos aquinhoados.
Por que não fazem? Porque a
economia precisa crescer e o país se desenvolver? Mas não fica mais fácil de
conseguir isso colocando mais gente no mercado de trabalho e na escola? Se o
Mercado não tem constrangimento com o lucro, um Estado que se propõe
democrático e progressista precisa ter vergonha da miséria e da fome. Dizem os
entendidos em política que governar é eleger prioridades. Pode haver precedência
maior do que alimentar, abrigar e oportunizar emprego e educação para toda a
população?
O que causa indignação é que essa
dura e triste realidade já não surpreende e nem causa mais consternação. Uma
realidade tratada como se fosse uma verdade inconveniente. O problema é que não
existe dinheiro suficiente para acabar com a pobreza, dizem os governantes. A
compra de vacinas provou que quando se trata de emergência o dinheiro aparece.
Tanto a doença como a fome são igualmente urgências que precisam ser atacadas
de pronto. Por que então não canalizar os recursos para aqueles que mais
necessitam da ajuda estatal?
Virou lugar comum dizer que a
maior riqueza de uma nação é o seu povo. Por que então tantos brasileiros são
tratados como se não valessem nada? Se a vacina está servindo de antídoto para
a peste do coronavírus, o descaso para com as famílias empobrecidas é uma praga
que não apenas se mantém ao longo do tempo, mas que se propaga e se expande
cada dia mais. Em outubro teremos eleições e os candidatos, na sua imensa
maioria já conhecidos “de outros carnavais”, vão repetir promessas surradas e nunca
cumpridas. Façamos pois do voto a nossa vacina contra os mentirosos, os
gananciosos, os egocêntricos... E não esqueça de aplicar as duas doses (2 e 30
de outubro).
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