Governismo ou oportunismo?
Lamentavelmente a política está se transformando na arte da hipocrisia. E isso explica em boa parte a perda de credibilidade que esse importante segmento vem tendo e que ocorre em escala geométrica. E o mais incrível, quem menos parece estar se importando com isso é justamente a classe política. Pelo menos é o que depreende das ações inadequadas que continuam ocorrendo e mais ainda, das declarações inoportunas que se avolumam.
No início desta semana, ao criticar pelas redes sociais a cobrança de líderes peemedebistas por uma maior fidelidade por parte de deputados da base do governo Sartori, que considerei despropositada, tendo em vista que parlamentares e partidos devem ter no seus eleitores e nas suas bandeiras ideológicas a sua maior preocupação, fui contestado pelo presidente da Assembleia Legislativa, do PMDB, que postou a seguinte resposta no seu twitter: “Tem que analisar antes de ingressar no governo, estando dentro tem que defender e votar com governo, ou entregar todos cargos”.
Mensagem direta para o PDT e para o PP, que tiveram deputados votando contra os interesses do governo nos projetos que aumentaram o ICMS e reduziram o valor das RPVs. Mais que um despropósito, a cobrança trata-se de uma ingratidão, tendo em vista que os dois projetos foram aprovados com os votos da maioria das bancadas pedetistas e pepistas.
Mas o que mais me surpreende nesse episódio é que um dia depois da troca de postagens, leio nos jornais que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, do PMDB, algoz preferencial da presidente Dilma Rousseff e do seu governo, por razões de todos conhecidas, declarou que “o PMDB não pode se calar em troca de meia dúzia de carguinhos”. Epa! Quer dizer então que ele está defendendo o desembarque do PMDB do governo? Sim, pela lógica do presidente do Parlamento gaúcho é isso que deveria acontecer.
Mas aí a conversa é outra. O PMDB nacional não quer abdicar das regalias. Pelo contrário. Quer mais regalias. Ou melhor, quer todas as regalias. E já planeja deixar de ser linha auxiliar do governo e tomar o poder em suas mãos. Pelo atalho, via impeachment, ou pelo voto direto, com candidatura própria. Atitudes que poderiam ser consideradas normais não fosse o trabalho de cupim realizado enquanto integrante da base governista.
Pois foi justamente essa atitude anti-ética e contraditória a razão da minha crítica, contestada pelo terceiro homem na hierarquia do governo do Estado. E para reforça-la, leio novamente nos jornais que o Palácio Piratini iniciou tratativas para trazer o PTB para a base governista. Quer evitar a reduzida vantagem obtida na votação dos projetos polêmicos, dizem os analistas. Ou seja, prevenção para a aprovação dos novos pacotes recessivos que virão. Tudo indica que a intenção governista será bem sucedida, pois os petebistas são muito apegados a cargos. Os mesmos cargos condenados por Eduardo Cunha.
Em meio a todo essa blá blá blá de incoerências, brasileiros e gaúchos, tal qual marisco em meio a onda e o rochedo, acabam sofrendo as consequências. Mas o interesse popular, ao que tudo indica, é secundário. O importante é a conquista e a manutenção do poder. Mal que não envolve apenas o PMDB, mas também o PMDB. Enquanto fidelidade for sinônimo de privilégio não haverá salvação para a política. Incontestavelmente.

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