segunda-feira, 18 de junho de 2012

18.06.2012

A esmola e o crack

            Retirei da excelente e marcante reportagem da jornalista Letícia Duarte (Zero Hora), intitulada “Filho da Rua”, uma frase  do desembargador Breno Beutler Júnior que me parece emblemática para a polêmica dúvida sobre dar ou esmolas nas sinaleiras. Disse ele: “A esmola é que fixa as crianças na rua”. Faz tempo que deixei de dar moedas para jovens pedintes. E tomei essa decisão por convicção de que não se tratava de uma coisa boa.
            Com meia década de vida, pude observar a evolução negativa que a simples “boa ação” teve ao longo do tempo. Inicialmente eram mães  com crianças de colo pedindo esmola para comprar leite e pão para seus filhos. O mesmo ocorria com homens adultos, que diziam estar desempregados.  O que se observava? Que o dinheiro, na imensa maioria das vezes, era utilizado para a compra de bebida alcoólica ou cigarro.
            Depois vieram os adolescentes. Maltrapilhos, surravam nossa consciência com suas  aparências frágeis,  mostrando um mundo diferente do doador, com fome, analfabetismo e muito sofrimento. Mas ai veio o tal de Loló. E o trocado do bem passou a ser utilizado para a compra do líquido do mal. Até chegar o crack. E com ele o aumento da criminalidade. O jovem não queria mais apenas moedas. Queria celulares, correntes de ouro, relógios e dinheiro. Bastante dinheiro.
            E nesse aspecto é preciso que  façamos uma auto-crítica. Que deixemos de ser hipócritas. Enquanto o uso do crack estava limitado à favela a classe mais abastada da sociedade fazia de conta que nada via. Bastou os viciados violentos virem para o asfalto, ameaçando a vida e o patrimônio dos “pacatos cidadãos”, para surgirem campanhas e clamores em busca de uma solução para o problema.

            Pois bem, é aqui que aparecem as crianças de rua. Frágeis e com rostos angelicais, repetem incessantemente o mantra: “tem uma moedinha ai tio(a)?  É que tô com fome”. De cortar o coração de qualquer um não? Pois é. Mas quando fiquei sabendo por uma dessas crianças que a esmola arrecadada era usada para a compra de crack e não de comida, e que apenas uma hora era suficiente para que ela arrecadasse cinco reais, quantia suficiente para comprar uma pedra da droga, deixei de colaborar com os pequenos viciados.
            Pois bem, todo esse lero-lero não é para pregar o “não à esmola”, mas para mostrar que a solução para o crack depende de todos. Do Estado e do cidadão. E que só uma grande corrente social pode entabular uma solução para esse grave problema, que não se restringe mais as grandes cidades. Faça a sua parte. Informe-se. Converse com seus filhos, amigos e vizinhos sobre os malefícios do crack. Cobre do Estado medidas objetivas para o problema. Principalmente nas áreas da prevenção, combate, tratamento e reinserção social dos dependentes.  E faça disto uma luta do cotidiano e não apenas um desafogo de consciência motivado por campanhas bem elaboradas ou reportagens bem redigidas. 

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