segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O funcionalismo não é o vilão da história.



A julgar pelo estudo realizado pelas quatro mais importantes entidades empresarias do Rio Grande do Sul (Fecomércio, Federasul, Fiergs e Farsul), sintetizado hoje (6) na editoria de Economia do jornal Zero Hora, tendo como cenário a recuperação econômica do estado nos próximos dezesseis anos (até 2020), o grande vilão da história é o servidor público estadual. Sim, pois é nele que está a mira das medidas mais impactantes sugeridas: revisão da pensão por morte do servidor, novo regime de previdência, fixação de idade mínima e tempo de contribuição para se aposentar e mais eficiência na gestão pública.

Acostumados a demitir funcionários para manter a lucratividade dos seus negócios, os empresários ao sugerirem medidas danosas ao funcionalismo público parecem desconhecer a diferença entre interesse público e privado. Quando um servidor estadual é selecionado mediante concurso público e assina contrato de trabalho com regras bem definidas quanto aos seus direitos e obrigações, ele firma uma espécie de pacto de relacionamento. Ou seja, estabelece uma negociação paritária, boa para as duas partes. Mudar as regras durante o jogo, portanto, é influenciar indevidamente no resultado da partida. E isso, moral e eticamente, é inadmissível.  

Claro que existem distorções. Talvez menos até que na iniciativa privada. Mas culpar o trabalhador pelo mau resultado da gestão é no mínimo uma injustiça. Fossem os servidores públicos incompetentes ou relapsos a iniciativa privada não os assediaria com propostas salariais atraentes, superiores a que eles ganham no Estado. Aliás, esse é um dos motivos para que áreas importantes do serviço público tenham carência de bons profissionais. Será que os empresários que hoje sugerem o empobrecimento dos trabalhadores do serviço público, sob o mesmo pretexto de equilíbrio econômico das finanças, fariam o mesmo em suas empresas, reduzindo suas expectativas de lucro e crescimento? Uma coisa os empresários não podem negar: não existe serviço público eficiente sem servidor motivado, qualificado e adequadamente remunerado. A menos que a ideia seja a de acabar com o serviço público.

Óbvio que algo precisa ser feito. O Estado não pode continuar sem perspectiva de desenvolvimento. O déficit público precisa ser estagnado. A previdência pública precisa solucionar seu desequilíbrio financeiro.  É preciso retomar a capacidade de investir em obras e serviços públicos. Mas tudo isso e muito mais só será possível se houver uma consciência social de que cada um e todos terão que dar sua cota de sacrifício. Um pacto nacional de desenvolvimento. O Rio Grande do Sul não é uma ilha. Tudo o que acontece no Brasil e no mundo tem influência no pampa. 

Por isso, empurrar a culpa para um segmento da sociedade é no mínimo uma grande covardia. Se os empresários não se deram conta, levantar a hipótese de mexer nas garantias constitucionais trabalhistas em ano eleitoral poderá ter influência direta no resultado do pleito. E isso não é bom para ninguém. Muito menos para o Rio Grande do Sul. E os empresários sabem muito bem disso.


Se o interesse é fazer algo rápido e produtivo, quem sabe não se começa buscando a união dos gaúchos (empresários ou não) na luta pela repactuação da dívida pública do Estado para com a União? Talvez esteja ai o embrião da nova mentalidade coletiva e solidaria que os gaúchos foram perdendo ao longo do tempo. De uma coisa os empresários podem ter certeza: o Rio Grande sempre se fez forte quando esteve unido. 

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