Brasil, a República dos
golpistas.
Se tem uma máxima da política
brasileira que se fortalece cada vez mais é a de que o pior inimigo é o
companheiro. Uma espécie de adaptação do provérbio “Mateus, primeiro os meus”,
que visa priorizar o interesse próprio em detrimento do grupo a que está integrado.
Trata-se de uma constatação histórica, factual, e não de interpretação
antropológica, filosófica ou psicológica do homo politicus.
E são tantos os casos de traição entre
companheiros de partido e de governo que vou me ater ao mais recente. Falo da
declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de que o seu partido, o
PSDB, precisa abandonar o governo Michel Temer. E o motivo velado é o mais
pragmático possível: Para não ser contaminado pela baixíssima popularidade do
presidente da República e perder votos na eleição de 2018.
Tal declaração disfarça uma incoerência absurda. Óbvio,
pois não foram os tucanos que ajudaram Temer a dar uma rasteira na Dilma,
expulsando-a da presidência para que ele ocupasse o seu lugar? E a indicação de
quatro tucanos para os ministérios da Secretaria de Governo, Relações Exteriores, Cidades e Direitos Humanos
não foi a contrapartida pelo apoio dado? Ou seja, tirou proveito máximo do
namoro mas ao ter que assumir as responsabilidades do casamento passou a
defender o divórcio.
E que não digam que se
trata de legítima defesa, pois o PMDB não tem coragem sequer de punir os seus,
que dirá os outros. Ou os ouvidos de mouco de Temer para a ferrenha oposição
praticada publicamente pelos senadores Roberto Requião e Kátia Abreu não é um
exemplo gritante dessa fraqueza postural?
Pois se é, não vejo razão
para o constrangimento separatista de FHC. Coerência nunca foi o forte das
alianças partidárias. Principalmente em véspera de eleição. Aliás, interesse
eleitoral pode ser considerado como motivação por justa causa para o fim de
alianças forjadas por interesses eleitoreiros e financeiros.
Mas se a proximidade do
pleito serve para afastar aliados de ocasião, serve também para apagar mágoas e
dissabores. Tudo pela sedução irresistível das urnas. Lula mesmo, em seu
périplo pré-eleitoral, está defendendo o perdão da traição tucana. Tudo para
viabilizar o interesse dos candidatos petistas em meia dúzia de estados onde PT
e PSDB desejam unir forças para conquistar o poder.
Então vamos parar com
essa hipocrisia. O eleitor brasileiro, infelizmente, já está acostumado com as
absurdas coligações montadas por quem diz uma coisa e depois, na prática, se
contradiz. E esse é um dos motivos do crescente descrédito popular da classe
política.
Mas enganam-se os que ainda
pensam que o eleitor é um tolo ou um conformado nato. Se para os maus políticos
a ficha da gestação de um novo eleitor ainda não caiu, para essa nova geração
de inconformados o balde de fichas se avoluma cada vez mais.
Pode ser até que não
transborde nessa eleição, mas que isso vai acontecer o mais brevemente não há nenhuma
dúvida. É que um povo indignado, quando se une em torno de um mesmo objetivo,
ao contrário dos partidos e da maioria dos políticos, é para valer.
Continuem
apostando na fragilidade dos brasileiros e conhecerão a força da cidadania.

