O mau exemplo do
Uruguai.
Não, não é sobre a liberação da
maconha que o título desse artigo se refere, tema que dominou o noticiário
internacional nos últimos meses. É sobre o péssimo transporte coletivo
oferecido aos uruguaios. Quem já teve a oportunidade de visitar o país vizinho
sabe do que estou falando. Ônibus antigos e mal conservados. Verdadeiras
sucatas ambulantes. Quase sem nenhum conforto. Claro que tal situação se deve a
falta de investimentos do governo e do empresariado. E todos sabemos da
precariedade da economia uruguaia. Mas tal situação explica, mas não justifica
o problema deles. É que transporte coletivo de passageiros come qualidade tem
que estar entre as prioridades de qualquer governante.
Faço essa referência pelo temor
de que o mesmo acabe acontecendo no Rio Grande do Sul, especialmente em Porto
Alegre. O motivo? O mesmo do Uruguai: falta de investimentos na renovação e
qualificação da frota. A causa? Bem ai a situação é outra. Mas o monopólio do
setor não está nas mãos da iniciativa privada? Está. Mas sob o regime de
concessão, o que significa dizer, sob a influência política do Estado. E dentre
esse controle estatal está a fixação das tarifas.
Como vivemos num regime
capitalista, o empresariado tem como motivação maior o lucro. Daí que qualquer
investimento no negócio, mesmo que de interesse público, tem que vir
acompanhado da devida contrapartida financeira. No caso do transporte coletivo
isso ocorre através do preço da passagem. Resumindo, bons ônibus dependem de
boa arrecadação na roleta. E é ai que está o conflito de interesses. O governo
quer a prestação de bons serviços. As empresas lucratividade. E a população
exige um serviço de qualidade à preços reduzidos.
Não existe almoço de graça, diz o
ditado popular. É a manifestação do óbvio. Só que o agente pagador, no caso os
passageiros, cansou de ser a vítima habitual. E foi esta a razão que motivou os
protestos nas ruas contra o aumento das tarifas dos ônibus de Porto Alegre. Que
começou no grito e acabou em violência. E depredação. Não só de ônibus,
lixeiras, lojas, prédios públicos, mas também de moradias privadas. Ou seja,
para ter seus direitos de consumidor respeitados, os protestantes acabam desrespeitando
o direito dos outros. E ai ninguém tem razão. E tudo vira baderna.
Para piorar a situação, o Estado,
responsável pela manutenção da ordem, optou por ter uma fiscalização
contemplativa dos excessos praticados nas ações de rua. Resultado, a tarifa
vigente no transporte coletivo da capital foi congelada à força. E o medo de
novos protestos, uma realidade. Já faz tempo que não ocorrem protestos nas ruas
de Porto Alegre, mas no centro histórico, local dos últimos confrontos, os
edifícios ainda estão com tapumes protegendo as suas vidraças. É que seus
moradores sabem que o “vulcão” fumega e que a ebulição é eminente.
Natural, pois a raiz do problema
não foi atacada. O serviço público de transporte coletivo continua na
dependência do uso do ônibus e este, por sua vez, continua dependendo da
iniciativa privada. Se o passageiro quer mais conforto, como a instalação de ar-condicionado
nos ônibus, alguém tem que pagar por isso. A prefeitura alega não ter recursos
para assumir integralmente o transporte de passageiros. E que o subsídio dado
atualmente não pode ser expandido. Da mesma forma, os donos de empresas de
ônibus alegam que estão tendo déficit na prestação do serviço.
Em meio a tudo isso, uma ameaça a
calmaria. Os trabalhadores do transporte coletivo da capital decidiram entrar
em greve por reajuste salarial. E ai as empresas do setor condicionam o
reajuste ao repasse do mesmo à tarifa. O problema está criado e já se enxerga “lava”
saindo do “vulcão”. A baderna, travestida de protesto, está novamente nas ruas.
E vai começar tudo outra vez. E novamente quem mais vai sofrer com isso será a
população. Quem depende do ônibus vai ficar à pé, prisioneiro dos grevistas. Os empresários
terão baixas nas suas frotas de veículos. Os moradores das áreas onde ocorrerão
os protestos serão novamente atormentados. A pixação, os incêndios e o
quebra-quebra de vidraças voltarão a ocupar espaços na mídia. E os principais
responsáveis por dar um basta em tudo isso, no caso o Estado e a Prefeitura,
ficarão na cômoda posição de neutralidade, pensando mais nos dividendos políticos
do que numa solução eficaz e duradoura para o problema.
Vejo só tem uma solução: a
mudança do atual sistema de gerenciamento do transporte coletivo. Os empresários
tem que assumir suas responsabilidades por gerirem uma atividade de interesse
público e a Prefeitura a sua, como agente fiscalizador e credor das
necessidades e dos recursos dos contribuintes que, afinal de contas, são os
verdadeiros financiadores de tudo. E o Estado tem que assumir, com rigorismo
legal, o controle dos excessos das ruas.
Se continuarem empurrando o
problema com a barriga em muito pouco tempo estaremos andando em sucatas
uruguaias pelas ruas de Porto Alegre. Querem pagar para ver? Eu não!

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