Do videogame para a vida real.
Deixem de
lado o comparativo desta geração que está protestando nas ruas com as que a
antecederam. Como diz Lulu Santos, “tudo passa, tudo sempre passará”. O mundo
mudou. Está mais ágil. Mais moderno. Mas continua cheio de problemas.
Especialmente sociais. E o dinheiro continua ditando regras e comportamentos. Mas
se agora temos mais facilidade para nos comunicarmos à distância e nos
aproximarmos fisicamente com maior rapidez, paradoxalmente nunca estivemos tão
isolados socialmente. A TV e a Internet se transformaram em companhias preferenciais.
Seja em casa, no restaurante ou qualquer outro lugar que permita conectar o
celular com a Internet. Mas pelo menos estamos bem mais informados. Será?
Então como
explicar o desconhecimento do nome do vizinho que mora no apartamento ao lado
do seu? Como esquecemos o aniversário dos nossos familiares? Por que é tão difícil
lembrar-se de um lugar onde se possa dançar? A resposta é simples: porque estamos cada vez
mais isolados. Cada vez mais egoístas. Lembram da Lei de Gerson, de querer
levar vantagem em tudo? Claro que não podemos generalizar. Existem exceções.
Mas isso não deveria ser regra?
Quem já não
ouviu a máxima de que vivemos num mundo globalizado? Mas se é globalizado por
que não estamos interagindo socialmente? Se está tão fácil se comunicar por que
estamos cada vez mais monossilábicos? Cada vez mais calados? E,
consequentemente, mais incompreendidos e cada vez menos compreensivos. Não
buscamos mais respostas, mas soluções prontas e acabadas. De preferência que
venham através de uma rápida pesquisa no Google. Se o mundo está globalizado, o
ser humano, por sua vez, está cada vez mais ilhado.
De todos os
males advindos dessa deformidade comportamental a maior, a meu ver, é a falta
de respeito para com o próximo e para consigo mesmo. Quando os meios justificam
os fins é porque estamos muito próximo do fim. Não consigo entender como um automóvel
possa ser considerado mais importante do que a vida de uma pessoa. Me revolta
ver o tratamento desrespeitoso de um filho para com os pais, responsáveis pela
sua existência e pela sua criação. E me espanta ver os pais se submeterem
resignados a essa discrepância. Como um jovem pode dar mais valor a um videogame
do que uma conversa com a mãe? Como podemos aceitar que um professor possa ser
massacrado financeiramente pelo Estado? São eles que educam e orientam
intelectualmente nossos filhos. E isso nos é muito caro. Ou pelo menos deveria
ser.
Nós os
adultos temos que assumir nossa culpa. Se chegamos hoje aonde chamamos foi por
que permitimos. Essa história de que o jovem é um contestador nato é balela. Simplificação
comodista de quem não quer assumir a sua responsabilidade. Rebeldia nunca foi
sinônimo de anarquia. Contestar sempre significou revisar, rever conceitos e
aprimorá-los. Que nova ordem é essa que vemos nas ações dos Black Blocks? Que
contribuição os atos de vandalismo do Bloco de Luta pelo Transporte Público
pode trazer atirando pedras e rojões numa audiência pública para discutir a
licitação que irá selecionar as empresas que iram transportar os porto-alegrenses?
Seus
integrantes provavelmente são aqueles que preferem os games violentos da
Internet. Que reproduzem nas ruas as transgressões morais vistas diariamente nas
programações equivocadas (em qualquer horário) da TV, sejam elas em canal
aberto ou privado. Sem orientação adequada (pais e escola) os jovens
desajustados moral e socialmente vão experimentar nas ruas aquilo que viram na
telinha (da TV, videogame ou Internet), como se essa fosse a realidade. E o
pior é que ao voltarem para casa ainda recebem o apoio da família. “Estão
lutando por uma sociedade melhor e um mundo mais justo”, dizem seus pais.
Não mesmo,
digo eu. O que a maioria desses contestadores agressivos quer (aqueles que não
estão servindo de massa de manobra de interesses políticos) é captar imagens
para por nas redes sociais. “Olha lá eu protestando. Estou fazendo história”, afirmam. Copiam o passado sem saber o por quê. Só para experimentar. Tirar uma
onda. Entrar na nova vibe contestadora do momento. E os prejudicados que se
explodam.
Já passou da
hora de dar um basta a tudo isto. Se
queremos construir uma nova realidade, que ela esteja alicerçada pelo estado
democrático de direito e não pela anarquia. Em nenhum lugar do mundo, em qualquer
época, uma nação conseguiu se tornar justa socialmente desrespeitando as leis e
as pessoas. Chega de brincadeira. Precisamos fazer essa geração de pseudos
anarquistas voltar para casa. Não para a frente do videogame, mas para a mesa
de jantar, junto com os pais, lugar de onde nunca deveriam ter saído. E que os pais ofereçam mais do que comida e
carinho. Que ofereçam diálogo e limite. E que cobrem dos nossos governantes
aquilo que precisa ser feito. Isso sim pode revolucionar o mundo.

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