terça-feira, 11 de março de 2014

Do videogame para a vida real.




Deixem de lado o comparativo desta geração que está protestando nas ruas com as que a antecederam. Como diz Lulu Santos, “tudo passa, tudo sempre passará”. O mundo mudou. Está mais ágil. Mais moderno. Mas continua cheio de problemas. Especialmente sociais. E o dinheiro continua ditando regras e comportamentos. Mas se agora temos mais facilidade para nos comunicarmos à distância e nos aproximarmos fisicamente com maior rapidez, paradoxalmente nunca estivemos tão isolados socialmente. A TV e a Internet se transformaram em companhias preferenciais. Seja em casa, no restaurante ou qualquer outro lugar que permita conectar o celular com a Internet. Mas pelo menos estamos bem mais informados. Será?

Então como explicar o desconhecimento do nome do vizinho que mora no apartamento ao lado do seu? Como esquecemos o aniversário dos nossos familiares? Por que é tão difícil lembrar-se de um lugar onde se possa dançar?  A resposta é simples: porque estamos cada vez mais isolados. Cada vez mais egoístas. Lembram da Lei de Gerson, de querer levar vantagem em tudo? Claro que não podemos generalizar. Existem exceções. Mas isso não deveria ser regra?

Quem já não ouviu a máxima de que vivemos num mundo globalizado? Mas se é globalizado por que não estamos interagindo socialmente? Se está tão fácil se comunicar por que estamos cada vez mais monossilábicos? Cada vez mais calados? E, consequentemente, mais incompreendidos e cada vez menos compreensivos. Não buscamos mais respostas, mas soluções prontas e acabadas. De preferência que venham através de uma rápida pesquisa no Google. Se o mundo está globalizado, o ser humano, por sua vez, está cada vez mais ilhado.

De todos os males advindos dessa deformidade comportamental a maior, a meu ver, é a falta de respeito para com o próximo e para consigo mesmo. Quando os meios justificam os fins é porque estamos muito próximo do fim. Não consigo entender como um automóvel possa ser considerado mais importante do que a vida de uma pessoa. Me revolta ver o tratamento desrespeitoso de um filho para com os pais, responsáveis pela sua existência e pela sua criação. E me espanta ver os pais se submeterem resignados a essa discrepância. Como um jovem pode dar mais valor a um videogame do que uma conversa com a mãe? Como podemos aceitar que um professor possa ser massacrado financeiramente pelo Estado? São eles que educam e orientam intelectualmente nossos filhos. E isso nos é muito caro. Ou pelo menos deveria ser.

Nós os adultos temos que assumir nossa culpa. Se chegamos hoje aonde chamamos foi por que permitimos. Essa história de que o jovem é um contestador nato é balela. Simplificação comodista de quem não quer assumir a sua responsabilidade. Rebeldia nunca foi sinônimo de anarquia. Contestar sempre significou revisar, rever conceitos e aprimorá-los. Que nova ordem é essa que vemos nas ações dos Black Blocks? Que contribuição os atos de vandalismo do Bloco de Luta pelo Transporte Público pode trazer atirando pedras e rojões numa audiência pública para discutir a licitação que irá selecionar as empresas que iram transportar os porto-alegrenses?

Seus integrantes provavelmente são aqueles que preferem os games violentos da Internet. Que reproduzem nas ruas as transgressões morais vistas diariamente nas programações equivocadas (em qualquer horário) da TV, sejam elas em canal aberto ou privado. Sem orientação adequada (pais e escola) os jovens desajustados moral e socialmente vão experimentar nas ruas aquilo que viram na telinha (da TV, videogame ou Internet), como se essa fosse a realidade. E o pior é que ao voltarem para casa ainda recebem o apoio da família. “Estão lutando por uma sociedade melhor e um mundo mais justo”, dizem seus pais.

Não mesmo, digo eu. O que a maioria desses contestadores agressivos quer (aqueles que não estão servindo de massa de manobra de interesses políticos) é captar imagens para por nas redes sociais. “Olha lá eu protestando. Estou fazendo história”, afirmam. Copiam o passado sem saber o por quê. Só para experimentar. Tirar uma onda. Entrar na nova vibe contestadora do momento. E os prejudicados que se explodam.

Já passou da hora de dar um basta a tudo isto.  Se queremos construir uma nova realidade, que ela esteja alicerçada pelo estado democrático de direito e não pela anarquia. Em nenhum lugar do mundo, em qualquer época, uma nação conseguiu se tornar justa socialmente desrespeitando as leis e as pessoas. Chega de brincadeira. Precisamos fazer essa geração de pseudos anarquistas voltar para casa. Não para a frente do videogame, mas para a mesa de jantar, junto com os pais, lugar de onde nunca deveriam ter saído.  E que os pais ofereçam mais do que comida e carinho. Que ofereçam diálogo e limite. E que cobrem dos nossos governantes aquilo que precisa ser feito. Isso sim pode revolucionar o mundo.


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