Por que o PMDB maltrata
o funcionalismo?
O Brasil é o país com maior carga
tributária do planeta. Dos doze meses do ano o trabalhador brasileiro utiliza
cinco deles apenas para pagar impostos. E mesmo assim os governantes teimam em
considerar o trabalhador como responsável pelas dificuldades financeiras do
erário. O achatamento dos proventos dos aposentados, por exemplo, é alardeado
como necessário para não sobrecarregar o déficit previdenciário e,
consequentemente, aumentar o desequilíbrio financeiro do Tesouro nacional. Mas
os trabalhadores não contribuíram durante décadas para receber uma
aposentadoria que lhes possibilitasse manter a sua qualidade de vida? Sim, mas
esse é um detalhe insignificante para os governos. O que importa é o equilíbrio
das contas. Mesmo que isso signifique prestar serviços públicos de qualidade
terceiro mundista, apesar de uma tributação de primeiro mundo. Mesmo que a
lucratividade dos bancos seja estratosférica. E mesmo que a corrupção consuma
expressiva fatia dos orçamentos públicos.
Mas se à nível nacional o
trabalhador é visto como o algoz das contas públicas, nos estados a situação é
ainda pior. E nesse particular o Rio Grande do Sul é pródigo em classificar o
funcionalismo público como principal responsável pela histórica crise
financeira do Estado. Pelo menos é o que se depreende das atitudes tomadas
pelos governos do PMDB e, para não ser injusto, todos os governos que
antecederam o de Sartori. Ocorre que ninguém ocupou por tanto tempo o Palácio Piratini
como o PMDB. Contando com o atual foram quatro governos. Isso significa
dezesseis anos. Doze anos e cinco meses já cumpridos e três anos e sete meses
por cumprir. Se considerarmos o tempo em que o PMDB permaneceu no comando do
Estado veremos que isso significa um terço do período resultante da volta das
eleições diretas para o governos estaduais. E mesmo com toda essa experiência
os governos peemedebistas mantiveram a escrita de satanizar o servidor público
estadual. Talvez esta seja a razão pela qual o então candidato José Ivo Sartori
não ter apresentado, na campanha, o seu plano de governo para o funcionalismo.
Ele já estava implícito no comportamento padrão do PMDB.
No governo Simon (1987-1990), o
primeiro da série, já no primeiro ano de governo, foi derrubada na Justiça
aquela que era e continua sendo a principal bandeira do magistério gaúcho, o
piso salarial. Na ocasião vigia o piso de 2,5 salários mínimos. Caso isso não
tivesse acontecido o piso estaria hoje em R$ 1.970,00 e não nos atuais R$
1.697,31, considerado o menor vencimento básico inicial dentre todos os
estados. Depois vieram os governos Britto(1995-1999) e Rigotto (2003-2007) e
com eles o parcelamento do pagamento dos salários. Na gestão Britto encontra-se
também uma das causas da atual escassez de servidores em áreas vitais como a
educação e a segurança: a implantação do Programa de Demissão Voluntária.
E aí chegamos ao governo Sartori
(2015-2018). Ao contrário dos seus antecessores do PMDB, o ex-prefeito de
Caxias se elegeu sem ter se comprometido com nenhuma das prioridades
estabelecidas pelo funcionalismo. E foi o único dos candidatos que se recusou a
assinar a carta compromisso apresentada pelo Cpers. E hoje se sabe bem o
porquê. Porque o PMDB considera os servidores público culpados pela crise financeira
do Estado e não os governos. Então dê-lhe congelamento e parcelamento de
salários, corte de horas extras, contingenciamento de concursados, extinção de
benefícios trabalhistas e outras medidas que pelo que dizem ainda serão
anunciadas. Fico imaginando o prazer sarcástico dos responsáveis pelo pacote de
maldades que irá atingir o funcionalismo. “Corta a aposentadoria especial
deles”, diz um. “Acaba com a licença-prêmio”, diz outro. “Extingue a
incorporação de gratificações”, brada um terceiro. Desconhecem ou pouco se
importam de que o que chamam de privilégios são, na verdade, conquistas
históricas da categoria.
Governos passam e os servidores
permanecem. Será difícil de entender isso? Pense no que seria da vida do
cidadão sem o serviço público. Sem professores e sem policiais, por exemplo.
Tá, eu sei, que hoje muitos dos serviços dessas duas áreas estão sendo supridos
pela iniciativa privada, mediante desembolso financeiro de quem pode. Uma
espécie de bitributação. Mas os 92,3% do funcionalismo – 322 mil servidores -
que recebem até R$ 5.100,00 não podem se dar a esse luxo. E toda essa
insatisfação gerada no meio acaba se refletindo na prestação dos serviços
prejudicando, em última instância, toda a população.
Isso me lembra a história de uma
briga entre dois brutamontes onde o perdedor resolve se vingar batendo em um anão
que estava observando a luta. Bater no funcionalismo público é fácil. Difícil é
cobrar a dívida ativa e peitar a União, exigindo a redução dos juros da dívida
e o pagamento devido pela Lei Kandir. Demonstração de valentia é acabar com os
incentivos fiscais. É fazer uma gestão criativa e inovadora, ampliando o leque
de alternativas econômicas, hoje baseadas majoritariamente no setor primário.
Resta saber se o governador Sartori estará disposto a enfrentar esses desafios.
Tempo é que não lhe falta. Mas colocando o funcionalismo como adversário ficará
muito mais difícil.

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