Minha coluna no Sul 21 desta quinta-feita (14/5):
A verdade sobre as
mentiras.
Tem uma máxima no jornalismo que
recomenda não confiar em tudo o que é dito por um político. Algo do tipo, dê mais
importância ao que ele faz e menos ao que diz fazer. Lamentavelmente, para eles (políticos), essa
cautela tem se justificado. E com uma frequência desconcertante. Uma dos casos
mais comentados foi a declaração involuntária, mas sincera, do ex-ministro da
fazenda, Rubens Ricupero, via satélite, disse não ter escrúpulos para adotar a
prática do “que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Mais isso
não significa, utilizando-me do provérbio popular, de que “onde há fumaça há
fogo”. A história política recente nos mostrou que essa não é a regra. Que o
diga as absolvições tardias do ex-ministro Alceni Guerra e do ex-presidente da
Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro. Por outro lado, foram muitos os casos em
a prevenção jornalística se mostrou eficaz. O Mensalão, por exemplo. Por isso,
saber identificar o que é boato ou má intenção e o que é fato comprovado tem
sido o grande desafio do eleitor brasileiro. Infelizmente este aprendizado tem
se dado de maneira traumática para o país, causando prejuízos aos partidos, aos
políticos e a própria democracia.
Esse impasse de versões desencontradas
teve mais um capítulo nessa semana. Refiro-me a divulgação pela imprensa e
redes sociais de uma possível confidência que o ex-presidente Lula teria feito
ao então presidente uruguaio, José Mujica, dando conta de que sabia da
existência do Mensalão. Tal revelação constaria do livro biográfico do
ex-presidente do Uruguai, “Mujica, uma ovelha negra no poder”. Tal episódio,
associado a suspeitas de que Lula teria participação ativa no escândalo do
Mensalão, espalhadas pela mídia, especialmente pela revista Veja, e pelos
opositores do PT, teve a repercussão e um efeito comparável a um rastilho de
pólvora. Rápido e explosivo. Afinal, Lula sempre negou o Mensalão. E mesmo que
o próprio Mujica tenha desmentido, dizendo que nunca falou desse assunto com o
ex-presidente brasileiro, o estrago já estava feito. E vejam só a coincidência,
tudo isso aconteceu após Lula ter dito, em discurso no Dia do Trabalho, que a
elite brasileira tem medo de que ele retorne à Presidência.
Sob a mesma tese – a retirada do
PT do poder – Dilma Rousseff e novamente Lula, são suspeitos de terem
envolvimento em outra escândalo, o Petrolão. E mesmo que nada ainda tenha sido
comprovado, a suspeição sobre ambos vagueia livre, leve e solta. Mas
interessa ao país esse embate político? Claro que não. O que interessa ao povo
brasileiro e isso tem sido dito em todas as grandes manifestações, é o fim da
corrupção. Independentemente de quem
seja o autor do delito ou a qual partido pertença. Se o PT hoje é vidraça, durante
muito tempo foi pedra. Aqui mesmo no Rio Grande do Sul me lembro do ataque
impiedoso do PT a então governadora Yeda Crusius, classificada como chefe da
quadrilha que fraudou o Detran, na ruidosa Operação Rodin. Até hoje não foi
comprovado o seu envolvimento. Mas os danos a sua imagem e à sua trajetória
política foram avassaladores.
É essa cultura do denuncismo
irresponsável que precisa ser modificada. Basta de fazer mau uso da boa vontade
e da paciência dos brasileiros. Acusar sem comprovação é praticar estelionato
de cidadania. O Brasil é sim um país sério e os brasileiros são sim honestos.
Só precisa que os representantes dessa gente bronzeada, como diz a letra da
música dos Novos Baianos (Brasil Pandeiro), também sejam. Mas colocar todos os
políticos sob suspensão ética e moral também é praticar um desserviço à nação. O
mesmo ocorre com a eleição de políticos com conduta suspeita. E os inúmeros
casos de corrupção atestam isso. Falam tanto em plebiscito para isso,
plebiscito para aquilo, por que então não consultam o povo para saber qual a
reforma política que ele deseja? Permitir que a classe política decida sobre o
seus próprios interesses não me parece uma conduta adequada e nem recomendável diante
do atual clima de desconfiança porque passa a categoria.
Da mesma forma a imprensa, que
goza de credibilidade popular e preza pela liberdade de expressão, precisa ser
mais ciosa com as denúncias que divulga. Nada justifica o sensacionalismo como
instrumento de conquista de leitores, ouvintes e telespectadores. Pior ainda se
as notícias vierem contaminadas pelo interesse econômicos e/ou ideológico. Igualmente,
mentir no exercício do mandato, seja em qual for a esfera de poder, também é
atitude condenável e inadmissível. Se é para enquadrar o atual momento político
brasileiro na esfera da passionalidade ou da ficção, como infelizmente parece
estar acontecendo, que seja através do sentimento de indignação e de
inconformidade. Basta de faz de conta. Mentira é mentira. Verdade é verdade.
Desde o início dos tempos. Tudo o mais é engodo. Desfaçatez. Mau-caratismo.

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