Bastidores da eleição gaúcha
Faltam nove meses e dez dias para as eleições de 2014. Portanto, já é possível realizar uma prévia do cenário político que se avizinha. Pelo menos no que diz respeito às dificuldades preliminares. Ou seja, o que ainda impede que os partidos anunciem suas estratégias para tentar ter um bom desempenho no pleito. Sim, trata-se de um esboço da fotografia política do momento. Não, não será uma análise científica baseada em pesquisas. É uma interpretação pessoal baseada em fatos e informações. Afinal, estamos na véspera do ano eleitoral e já é hora de se começar a falar de eleição. Até mesmo porque com a Copa do Mundo no Brasil teremos pouco tempo para fazer isto.
PT
Embora Tarso Genro ainda não tenha assumido sua condição de candidato à reeleição, o certo que esta será a aposta do PT em 2014. Mas com maiores dificuldades do que as enfrentadas na campanha eleitoral de 2010. Primeiro, por carregar o ônus de ser governo. Depois, por não contar (pelo menos no primeiro turno) mais com o apoio do PSB e do PDT. Dentre os partidos maiores, que compõem a base do governo petista, sobra apenas o PTB, enfraquecido pela crise da Procempa e pelo desinteresse do seu maior ícone, o ex-senador Sérgio Zambiasi, de concorrer na vaga de vice de Tarso. Isto sem falar no desgaste do atual governador por não conseguir cumprir com os compromissos de campanha, principalmente os do pagamento do piso salarial do magistério e a pavimentação dos acessos aos municípios que ainda não estão ligados à malha rodoviária pavimentada. A situação nacional do PT também depõe contra os interesses de Tarso. Tudo por conta da prisão de importantes lideranças petistas, como José Dirceu, José Genuíno e Delúbio Soares.
De positivo, as diversas obras do governo Dilma no RS, que o PT faz questão de confundir, como se o Estado tivesse participação efetiva nas suas execuções. Difícil mesmo será garantir exclusividade no palanque, como Tarso deseja. Culpa da composição pluripartidária de governo, montada por Lula e mantida por Dilma. Outro fator útil é a fidelidade e o empenho da militância petista, importante numa campanha eleitoral.
PP
Há três décadas longe do poder estadual (desde o governo Jair Soares), o Partido Progressista está se preparando para “brigar para valer” e voltar ao Piratini. A começar pela definição antecipada de que terá candidatura própria para governador e que ela será de oposição ao governo do PT. E o nome que representa a esperança progressista é o da senadora Ana Amélia Lemos. Com imagem consolidada como comunicadora e como política, tendo sido escolhida como uma das parlamentares mais influentes do Congresso Nacional, Ana Amélia já desponta na cabeça do eleitor gaúcho, mesmo não tendo confirmada sua pré-candidatura, como uma opção palpável para o governo do Estado. Além dessas vantagens pessoais, a senadora tem o benefício de aparecer, até o momento, como a única mulher na disputa para o governo do Estado, o que poderá lhe trazer vantagens perante o eleitorado feminino, o maior de todos os segmentos. Da mesma forma, será fundamental a organização que o PP possui à nível regional, onde detém o maior número de prefeito e vereadores dentre todos os partidos.
Ao contrário do PT, que já se decidiu por Dilma, o PP gaúcho tem uma definição e duas possibilidades. Não irá apoiar a candidata do PT e estuda a opção por Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB). No caso de Aécio, a aliança não tem a preferência da maioria dos progressistas, contrariando as últimas eleições onde o partido sempre esteve ao lado dos tucanos. É que desta vez existe a imagem negativa da ex-governadora Yeda Crusius, consolidada no eleitorado desde a última eleição geral. Já com Eduardo Campos a situação é outra. Pesquisa interna do PP-RS mostrou que o governador de Pernambuco tem a preferência das lideranças progressistas. Embora não dê indícios dessa inclinação, Ana Amélia não terá dificuldade de relacionar-se com os socialistas, com quem já esteve ao lado na eleição municipal para a prefeitura de Porto Alegre. O mesmo ocorre com Aécio, com que tem bom relacionamento.
A propósito, a questão ideológica tem tudo para não se transformar numa “arma” capaz de influenciar na decisão do eleitor. Isto porque boa parte da população já demostrou estar mais preocupada com propostas realistas e com a ficha limpa dos candidatos do que com aspectos doutrinários e filosóficos dos partidos. Neste caso, focando no PP, tentativas de vincular Ana Amélia à ditadura militar (Arena) e a má imagem das lideranças nacionais envolvidas no Mensalão e de Paulo Maluf, tem tudo para não prosperar. Primeiro porque ela, enquanto jornalista, foi uma das críticas dos excessos praticados naquele período de exceção. E de Maluf e dos mensaleiros também. Aliás, coerente com a postura do PP gaúcho, que em diversas ocasiões se pôs na oposição das decisões do comando nacional. Com a balança pesando mais para o lado dos benefícios do que para o dos prejuízos, parece natural o fato das pesquisas colocarem Ana Amélia como favorita para a conquista do Piratini.
PDT
Com a intenção de aparecer com terceira via da eleição, antecipadamente polarizada por Tarso e Ana Amélia, o maior problema do PDT é unir o partido em torno de Vieira da Cunha, já lançado como candidato à governador. Dividido entre os que participaram do governo petista - e que por isso defenderam a manutenção da aliança com o PT - e os que defenderam candidatura própria, Vieirinha deve entrar na campanha tomando o cuidado de acompanhar a fidelidade dos pedetistas. Outra dificuldade do PDT será a montagem de uma aliança que lhe permita contar com um tempo razoável na propaganda eleitoral gratuita. Isto explica o acordo proposto pelo PDT, para estudar a viabilidade da formação de um bloco de oposição, assinado pelo PSD, PSC, DEM, PSDB, PR e PPS.
Se por um lado a composição permitirá um tempo adicional na propaganda eleitoral, por outro a pluralidade de siglas acarretará uma preocupação importante: quem ocupará o palanque desse bloco oposicionista? Dilma ou Aécio? Se depender do PDT será Dilma. Se a escolha for feita pelo PSDB será Aécio. Complicada esta situação. Ou será que a montagem eleitoral abrangerá apenas a eleição proporcional? Com tantas dúvidas, fica difícil prever as chances de Vieirinha. Resta a ele torcer para que a “sorte” lhe favoreça, a exemplo do que aconteceu em 2002 com Rigotto, terceira via entre Tarso e Britto, e em 2006 com Yeda, terceira via entre Rigotto e Olívio Dutra. Difícil, é preciso reconhecer.
PMDB
A exemplo do PDT, o principal problema do PMDB é de ordem interna. .Quem será o candidato ao governo do Estado? Sartori, como inicialmente previsto? Rigotto novamente? Ou Ibsen Pinheiro? Ou Paulo Ziulkoski? Ou outro nome. Com tantas dúvidas, o PMDB repete as incertezas que tanto prejudicaram o partido nas últimas eleições. Outro obstáculo dos peemedebistas será a montagem do apoio presidencial no RS. Dilma, Aécio ou Eduardo Campos? Com o vice-presidente da Repúblico e com diversos ministros, o coerente seria o PMDB apoiar a reeleição de Dilma. Mas como ficaria o palanque estadual? Subiria ela nos palanques dos candidatos do PT, do PMDB e do PDT, siglas que a apoiam nacionalmente? Coisa que Tarso Genro não admite de forma alguma, já que impõe palanque único e exclusivo. Ficar em cima do muro também não adianta ao PMDB. Fez isto em 2010 e teve consequências negativas. Outro problema é a memória do eleitor. Tendo sido governo em doze dos últimos 26 anos, os gaúchos poderão imaginar que os grandes problemas do Rio Grande não foram devidamente encaminhados nas gestões do partido. Mas em se tratando do PMDB, com centenas de prefeitos e milhares de vereadores, não dá para descartar as chances de chegar ao segundo turno. Talvez se apropriando do PDT a condição de terceira via. Mas está possibilidade depende da solução dos problemas que estão impedindo o partido de iniciar o planejamento da sua campanha.
PSDB
Embora sem nomes de peso e com o fardo da imagem de Yeda Crusius para carregar, não dá para descartar a possibilidade do PSDB apresentar candidatura própria. Se isto acontecer, será por imposição do diretório nacional, que pretende ter palanque para Aécio Neves no Rio Grande do Sul. Neste caso será apenas para cumprir calendário, nada mais.
PSB
Se tem um partido que vem crescendo a cada eleição, é o PSB. A ponto de ter candidato próprio à presidência da República. E no Rio Grande do Sul uma liderança se destaca: o deputado federal Beto Albuquerque. Experiente e habilidoso negociador, Beto pode ser considerado um coringa para ocupar todos os cargos de uma chapa majoritária. Até mesmo para governador, não fosse a necessidade de buscar um grande partido para apoiar Eduardo Campos. Se quisesse concorrer à vice-governador poderia escolher qualquer chapa, com exceção do PT, que irá apoiar Dilma, e do PSDB, que apoiará Aécio. Já a vaga para o Senado não é bem assim. PMDB e PDT terão representantes na chapa majoritária. Mas no PP não haveria problema. Por tudo isto, é que o PSB terá um papel de destaque na montagem das estratégias eleitorais e durante a campanha.
PSOL
Outro partido que deverá apresentar candidato próprio, apesar das mínimas chances de êxito, será o PSOL. E tudo indica que o nome recairá sobre Roberto Robaina. Deverá exercer o conhecido papel de oposição radical. Deve priorizar a eleição proporcional, objetivando colocar representantes no parlamento gaúcho e na Câmara dos deputados.
PCdoB
Ao contrário da eleição municipal, especialmente a de Porto Alegre, os comunistas não tem maiores expectativas na eleição majoritária. Talvez, se o PTB não desejar, consiga emplacar a vaga de vice na chapa de Tarso Genro. Difícil, pois o PTB não é de abdicar de cargos. A exemplo do PSol, deverá centrar seu interesse na conquista de vagas na Assembléia Legislativa (sob a influência de Manuela D’Ávila) e na Câmara dos Deputados.
Outros
Todos os demais partidos não citados deverão atuar como coadjuvantes na composição de alianças com as siglas acima referidas. É a tendência. Mas com tantas siglas não me causaria espanto se alguma deles se aventurasse a uma candidatura própria. Já vimos isso em outras eleições.

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