A estranha vida humana dos animais.
Passei boa parte da minha vida ao lado de animais.
Cachorros, pássaros, tartarugas, peixes de aquário, coelhos e outros que não
lembro. E é curioso como a gente se apega aos bichinhos. A ponto de pensar que
podemos nos comunicar e entender seus sentimentos e desejos. “Parece até que é
gente”, chegamos a dizer. E muitos são os motivos para esse apego emocional.
Pela companhia nos momentos de solidão. Pela fidelidade no trato com o dono.
Pela energia boa que geram na casa. E outros mais.
Mas essa sensação de complementariedade está mudando. De coadjuvantes
os animais estão virando protagonistas. Tratados como pessoas. Literalmente.
Com direito a dog sitter (babá de cachorro) ou cat sitter (babá de gato). Ida
semanal (as vezes mais de uma vez) a Pet Shop (salões de beleza para animais).
Nutricionista. Dogwalker (passeador). Estilista. Etc.
A dúvida que fica é se todo esse tratamento não é um
exagero. Para os donos e para os animais. Pelo que me consta cachorros e gatos
não estão na lista de animais em extinção. Pelo contrário, nunca se viu tantos
espécimes. Então o que justifica tal comportamento humano? A ponto de superar o
tratamento proporcionado as pessoas? Querem um exemplo? Observem o
comportamento de uma pessoa ao ver um animal sendo maltratado. Será de revolta
e indignação. Dificilmente você verá o mesmo comportamento se o agredido for
uma pessoa adulta (crianças e idosos não valem). O mesmo ocorre quando nos
deparamos com um animal doente ou faminto. Recebe socorro imediato. Por que não
fazemos a mesma coisa quando nos deparamos com mendigos? Ou com crianças
pedintes nas sinaleiras?
Não estou fazendo a apologia ao destrato dos animais. Já
disse que convivo bem com eles. Minha intenção é chamar a atenção para os
exageros que começam a ser praticados. Claro que ter animais de estimação tem
muitas vantagens. Já citei algumas. Outra, por exemplo, é o benefício que eles
trazem às crianças para que saibam lidar com a perda (morte). Do aprendizado
sobre a importância do companheirismo. E outras mais. Só que acho injusto para
com os animais dar-lhes tratamento como se humano fossem. Não são. E nunca
serão. São seres diferenciados. Com características próprias. Geradas por uma
evolução de milênios, senão milhões de anos.
Eles possuem seus próprios habitats. Como um apartamento
pode ser considerado o melhor local para a criação de cachorros (especialmente
os de maior porte)? Como uma ração industrializada podem ser melhor do que um
alimento natural? Se assim fosse, como explicar que gatos se alimentem de
pequenos roedores? Animais, por mais que queiramos tratá-los como pessoas, são
animais. Parece óbvio mais não é. Pelo menos é que se está observando no
convívio diário.
Um animal jamais superará a presença de um filho. E como
existem crianças esperando pela adoção. A indústria de produtos para cães,
gatos, aves, etc, prolifera no mesmo ritmo que a miséria nas zonas de pobreza.
Não pode faltar ração para os animais, mas milhares de toneladas de ração
(comida) humana são jogadas fora diariamente. Indigentes passam frio nos meses
de inverno, mas o desfile de animais bem agasalhados é contínuo. É a grife das
pet shops.
Que bom que a humanidade está evoluindo no trato com os animais.
Que pena que esteja involuindo no trato com a sua própria espécie. Essa é a
minha preocupação. Desejo igualdade entre homens e animais. Se quem não gosta
de bicho não pode ser boa gente, quem não gosta de gente, o que é?

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