sexta-feira, 24 de junho de 2016

Colega ou companheiro de luta?

Zero Hora


Após 43 dias de interrupção forçada das aulas, finalmente a rotina do Colégio Estadual Júlio de Castilhos poderá ser retomada. Durante todo o período em que a escola esteve fechada, a exemplo do que aconteceu em dezenas de outras escolas, os alunos ocupantes, uma minoria ligada a partidos políticos, incentivada pelo Cpers - uma entidade que há muito deixou de representar os interesses da categoria para se dedicar ao atendimento de interesses de político-partidários -, realizou atividades, digamos, alternativas, como por exemplo, orientações sobre como ocupar uma escola e noções básicas sobre socialismo e o comunismo. Pouco ou nada afetas ao conteúdo curricular estabelecido pelos órgãos reguladores do ensino.

Na véspera da retomada das aulas é importante fazer uma avaliação dos protestos. Os manifestantes já fizeram e se orgulharam do resultado final da ocupação. “Conseguimos transformar o Julinho numa escola de luta”, disse um dos coordenadores do movimento. Mas será que a escola é o melhor local para esse aprendizado ideológico? Não seria melhor usar espaços mais afins, como a sede das entidades estudantis e dos partidos políticos ou as chamadas “casas do povo”, no caso as Câmaras de Vereadores, Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional? Penso que sim.

E os alunos que não participaram do movimento de ocupação e não puderam assistir as aulas para receber o conhecimento a que fazem jus, que avaliação irão fazer de tudo isso? Conseguirão recuperar o conteúdo perdido? No caso daqueles que irão prestar vestibular no final do ano, conseguirão concluir o 3º ano do ensino médio a tempo de participar do concurso seletivo? E os professores? Conseguirão ter férias, uma vez que precisarão recuperar as aulas que não foram dadas?
Como se vê, enquanto uma minoria comemora a sua vitória de Pirro, a comunidade escolar (alunos, pais e professores) trata de recuperar o patrimônio depredado pelos manifestantes, preparando minimamente os estabelecimentos para o recomeço das aulas.

Mas na verdade, quem deve avaliar os prós e contras desse tipo de protesto é a sociedade como um todo. A começar pelos nossos governantes e legisladores. Para saber que tipo de geração de jovens estamos construindo? Que tipo de mundo deixaremos para nossos filhos e netos?


Enquanto isto não acontece, tenho uma dúvida premente. Que tipo de denominação os estudantes ativistas irão exigir dos demais, que não são, que seja capaz de identifica-los com a sua nova postura revolucionária? Colega ou companheiro de luta? Talvez isso represente o primeiro passo para um discussão séria sobre o futuro da educação no Brasil. Tomara!

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