Ser brasileiro. Crime
ou castigo?
Pode haver prioridade maior para uma pessoa do que a
manutenção da sua vida? Óbvio que não. De que adianta acumular fama, poder e
riqueza se não há garantias da preservação da vida? E não me refiro aos
cuidados e as atitudes individuais. Refiro-me aos cuidados com o ser humano
como ente social, na sua relação interpessoal e coletiva. Em outras palavras, o
cuidado do Estado com o cidadão. Sim, a intermediação de quem foi escolhido,
democraticamente, para zelar pelos interesses da coletividade. Mas então por
que então nossos governantes deixam tanto a desejar no controle e combate à
criminalidade e a mortalidade no trânsito?
Em nenhum momento da história do país, mesmo nas guerras,
tantos brasileiros tiveram suas vidas abreviadas por uma bala ou por um
acidente de trânsito como nas últimas décadas. E o pior, de maneira constante e
crescente. A ponto de um assassinato de
seis pessoas em Cidreira, no litoral gaúcho, ser visto como algo cotidiano,
rotineiro nas manchetes da imprensa. O mesmo pode ser dito da morte das treze
pessoas que perderam a vida nas estradas no último final de semana. Incompreensível
banalizar a violência que abrevia a vida de um ser humano? Não é essa a ordem
natural das coisas.
A seriedade com que o assunto é tratado e a obstinação pela
busca de soluções para estes problemas é que diferencia o desenvolvimento de um
país em relação ao outro. E nesse aspecto o mundo avança e o Brasil retrocede.
Na Alemanha, as mortes em acidentes de trânsito caíram 81% nos últimos quarenta
anos. A Austrália reduziu a mortandade nas ruas e estradas em 40% ao longo de
duas décadas. A China precisou de apenas dez anos para reverter uma situação
calamitosa em que os acidentes de trânsito haviam se tornado a principal causa
de morte entre os cidadãos de até 45 anos de idade.
Enquanto isso, aqui no Brasil, segundo levantamento feito
pelo Observatório Nacional de Segurança Viária, mais de 60 mil pessoas morrem
anualmente em acidentes de trânsito. Uma estatística macabra que cresce ano
após ano. Ou seja, no Brasil morre-se mais em acidentes de trânsito do que por
doenças como o câncer. Dados atualizados
do Ministério da Saúde mostram
que a cada hora o trânsito mata mais de cinco pessoas no país. Isso sem falar nos casos
de invalidez permanente, que havia tempo já ultrapassou os 350 mil casos/ano.
E a outra causa mortis mais frequente? Os homicídios? Outro
recorde negativo. O Brasil, segundo dados do Mapa da Violência 2014, baseado
num trabalho similar realizado pela Unesco, atingiu em 2012 o maior número de
homicídios da sua história: 56.337 mortes. Para se ter uma ideia, isso
significa mais assassinatos do que a perda total de vítimas no conflito da
Chechênia, entre 19994 e 1996. Tal
quantitativo, segundo a Organização Mundial da Saúde, coloca o Brasil como o
país com maior número de homicídios no mundo. De cada 100 assassinatos no
planeta, 13 são no Brasil, informa a OMS.
Há quem diga que isso são apenas números. Que a complexidade
dos temas é muito maior que uma simples constatação aritmética. E é mesmo.
Qualquer um com o mínimo de conhecimento e inteligência pode constatar isso.
Mas aí é que está o impasse. Como atacar o problema pela raiz? Através da
educação. Diria mais, pelo conhecimento. E é ai que se encontra a culpabilidade
de nossas governantes. Seja federal, estadual ou municipal. Seja em que esfera
for. Valorizar a vida passa pela cidadania. Pela valorização do próximo. E isso
começa a acontecer na família e se fortalece e consolida nos bancos escolares. Governo
que não prioriza a educação não prioriza a vida e, consequentemente, mata seu
povo nos enfrentamentos com o crime e com o duelo do trânsito.
Claro que estamos enfrentando uma situação é emergencial.
Diria mais, uma questão de vida ou morte. Uma das principais causas, se não a
principal, é a drogadição. Mas de onde vem a maioria das drogas e das armas? De
outros países. Mas então por que não patrulham adequadamente nossas fronteiras,
nossos portos e nossos aeroportos?
Da mesma forma, porque os governos investem tão pouco em
educação para o trânsito? Seja em programas educacionais ou em propaganda
institucional? Por que não investem mais em melhoria da circulação viária? Seja
na cidade ou nas estradas, duplicando, por exemplo, as que já estão com seu
trânsito suturado?
Por que não adequam os efetivos policiais ao crescimento da
população? Por que não pagam salários dignos para professores e servidores da
segurança pública?
Mas como? Diriam alguns. Para isso precisa de dinheiro, e ele
está escasso. Mas para desviar bilhões de reais para os bolsos dos corruptos
que se escondem por detrás dos seus cargos e mandatos, não? Para investir
bilhões em obras de menor importância social, a maioria superfaturada ou de
conclusão indefinida, têm.
Se cuidar da vida das pessoas, investindo adequadamente em
educação, segurança e saúde, não fosse uma questão de responsabilidade, que
fosse pelo menos de justiça, uma vez que os governos arrecadam (e bem) para
isso. O que significa dizer que o cidadão paga, através dos impostos, por
serviços públicos que, ou não recebe, ou que é insuficiente e insignificante.
E esse é o maior de todos os crimes praticados por nossos
representantes nos palácios, nos plenários legislativos e nos tribunais. O de
iludir e ludibriar os brasileiros, fazendo-os pensar que vivem numa nação que
preza a ordem e o progresso.
Triste do país que para se apresentar ao mundo como prospero
e justo precisa escrever isso em sua bandeira.
Artigo publicado no Sul21 de 16.04.2015