quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ser brasileiro. Crime ou castigo?




Pode haver prioridade maior para uma pessoa do que a manutenção da sua vida? Óbvio que não. De que adianta acumular fama, poder e riqueza se não há garantias da preservação da vida? E não me refiro aos cuidados e as atitudes individuais. Refiro-me aos cuidados com o ser humano como ente social, na sua relação interpessoal e coletiva. Em outras palavras, o cuidado do Estado com o cidadão. Sim, a intermediação de quem foi escolhido, democraticamente, para zelar pelos interesses da coletividade. Mas então por que então nossos governantes deixam tanto a desejar no controle e combate à criminalidade e a mortalidade no trânsito?

Em nenhum momento da história do país, mesmo nas guerras, tantos brasileiros tiveram suas vidas abreviadas por uma bala ou por um acidente de trânsito como nas últimas décadas. E o pior, de maneira constante e crescente.  A ponto de um assassinato de seis pessoas em Cidreira, no litoral gaúcho, ser visto como algo cotidiano, rotineiro nas manchetes da imprensa. O mesmo pode ser dito da morte das treze pessoas que perderam a vida nas estradas no último final de semana. Incompreensível banalizar a violência que abrevia a vida de um ser humano? Não é essa a ordem natural das coisas.

A seriedade com que o assunto é tratado e a obstinação pela busca de soluções para estes problemas é que diferencia o desenvolvimento de um país em relação ao outro. E nesse aspecto o mundo avança e o Brasil retrocede. Na Alemanha, as mortes em acidentes de trânsito caíram 81% nos últimos quarenta anos. A Austrália reduziu a mortandade nas ruas e estradas em 40% ao longo de duas décadas. A China precisou de apenas dez anos para reverter uma situação calamitosa em que os acidentes de trânsito haviam se tornado a principal causa de morte entre os cidadãos de até 45 anos de idade.

Enquanto isso, aqui no Brasil, segundo levantamento feito pelo Observatório Nacional de Segurança Viária, mais de 60 mil pessoas morrem anualmente em acidentes de trânsito. Uma estatística macabra que cresce ano após ano. Ou seja, no Brasil morre-se mais em acidentes de trânsito do que por doenças como o câncer.  Dados atualizados do Ministério da Saúde mostram que a cada hora o trânsito mata mais de cinco pessoas no país. Isso sem falar nos casos de invalidez permanente, que havia tempo já ultrapassou os 350 mil casos/ano.

E a outra causa mortis mais frequente? Os homicídios? Outro recorde negativo. O Brasil, segundo dados do Mapa da Violência 2014, baseado num trabalho similar realizado pela Unesco, atingiu em 2012 o maior número de homicídios da sua história: 56.337 mortes. Para se ter uma ideia, isso significa mais assassinatos do que a perda total de vítimas no conflito da Chechênia, entre 19994 e 1996.  Tal quantitativo, segundo a Organização Mundial da Saúde, coloca o Brasil como o país com maior número de homicídios no mundo. De cada 100 assassinatos no planeta, 13 são no Brasil, informa a OMS.

Há quem diga que isso são apenas números. Que a complexidade dos temas é muito maior que uma simples constatação aritmética. E é mesmo. Qualquer um com o mínimo de conhecimento e inteligência pode constatar isso. Mas aí é que está o impasse. Como atacar o problema pela raiz? Através da educação. Diria mais, pelo conhecimento. E é ai que se encontra a culpabilidade de nossas governantes. Seja federal, estadual ou municipal. Seja em que esfera for. Valorizar a vida passa pela cidadania. Pela valorização do próximo. E isso começa a acontecer na família e se fortalece e consolida nos bancos escolares. Governo que não prioriza a educação não prioriza a vida e, consequentemente, mata seu povo nos enfrentamentos com o crime e com o duelo do trânsito.

Claro que estamos enfrentando uma situação é emergencial. Diria mais, uma questão de vida ou morte. Uma das principais causas, se não a principal, é a drogadição. Mas de onde vem a maioria das drogas e das armas? De outros países. Mas então por que não patrulham adequadamente nossas fronteiras, nossos portos e nossos aeroportos?

Da mesma forma, porque os governos investem tão pouco em educação para o trânsito? Seja em programas educacionais ou em propaganda institucional? Por que não investem mais em melhoria da circulação viária? Seja na cidade ou nas estradas, duplicando, por exemplo, as que já estão com seu trânsito suturado?
Por que não adequam os efetivos policiais ao crescimento da população? Por que não pagam salários dignos para professores e servidores da segurança pública?

Mas como? Diriam alguns. Para isso precisa de dinheiro, e ele está escasso. Mas para desviar bilhões de reais para os bolsos dos corruptos que se escondem por detrás dos seus cargos e mandatos, não? Para investir bilhões em obras de menor importância social, a maioria superfaturada ou de conclusão indefinida, têm.

Se cuidar da vida das pessoas, investindo adequadamente em educação, segurança e saúde, não fosse uma questão de responsabilidade, que fosse pelo menos de justiça, uma vez que os governos arrecadam (e bem) para isso. O que significa dizer que o cidadão paga, através dos impostos, por serviços públicos que, ou não recebe, ou que é insuficiente e insignificante.

E esse é o maior de todos os crimes praticados por nossos representantes nos palácios, nos plenários legislativos e nos tribunais. O de iludir e ludibriar os brasileiros, fazendo-os pensar que vivem numa nação que preza a ordem e o progresso.

Triste do país que para se apresentar ao mundo como prospero e justo precisa escrever isso em sua bandeira.

Artigo publicado no Sul21 de 16.04.2015

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