O recado do tempo
Uma relação conflitante entre
jovens e idosos, que embora silenciosa é cada vez mais perceptível, serve de
alerta para uma realidade inquestionável: a população brasileira está
envelhecendo em uma velocidade nunca antes vista. Estima-se que até 2050 o
Brasil terá mais de 30% dos seus habitantes com 60 anos de idade ou mais. Atualmente
esse percentual é de 18%. E já foi 5% em 1950 e 8% em 2000. Basicamente três
fatores contribuíram para esse rápido crescimento: o avanço da medicina, a
melhoria da qualidade de vida e a diminuição do número de nascimentos. Nos
estados do Sul e particularmente no Rio Grande do Sul, projeta-se que em 2100 cerca
de metade da população seja composta por idosos.
Aos poucos podemos observar a
adaptação das instituições públicas e privadas a essa nova realidade.
Atendimento preferencial, vagas de estacionamento, reservas no transporte
público, são alguns dos “privilégios” concedidos à terceira idade. Mas se
podemos considerar isso um avanço civilizatório, por outro é preciso lamentar a
falta de uma maior conscientização coletiva sobre tudo o que envolve o
envelhecimento, especialmente dos mais jovens.
É comum, lamentavelmente,
observar idosos serem ofendidos e destratados por suas lentidões no trânsito;
por suas dificuldades de locomoção, audição e visão; por seus desconhecimentos
e dificuldades com a utilização de equipamentos tecnológicos, como caixas eletrônicos;
e outras tantas adversidades próprias de quem já viveu bastante. Dói na alma
ver adolescentes e jovens desrespeitarem pais e avós como se fossem cidadãos de
segunda classe, um estorvo social. Com raras e elogiáveis exceções.
Vamos demorar um bom tempo, sei
bem, para atingirmos o estágio japonês de respeito e valorização dos idosos.
Mas se eles conseguiram, por que não perseguir o bom exemplo? Estamos vendo
diariamente a cobrança pública, especialmente através das redes sociais, da
necessidade de cuidados especial para com os animais, para com a igualdade de
gênero e raça, da defesa dos direitos LGBTQIA+ e outros, por que então não
direcionar esse ganho civilizatório também para com os idosos?
Não fosse por humanidade e
justiça, por uma questão de obviedade, já que se os jovens tiverem sorte irão
envelhecer. Afinal, estudos especializados demonstram que atualmente a
expectativa de vida no Brasil subiu para quase 77 anos. E aí juventude, como
fica? Vão engrossar a fila dos negacionistas, fazendo de conta que a realidade etária
não faz parte da sua existência? O destino é implacável e um dia a conta vai
chegar. Pensem nisso. O jovem de hoje será o velhinho(a) de amanhã.
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