A imprensa e as
sandálias da humildade.
A humanidade passa por um
processo de reestruturação moral e, como toda obra em construção, comete erros
e acertos. Dentre os construtores da nova realidade está a imprensa. Essa, uma
espécie de mestre de obras, tem a responsabilidade de primar pela leitura fiel
do projeto e pelo repasse das tarefas à todos os demais obreiros. Não é pouca
coisa. Daí o cuidado necessário para com as suas funções.
Digo isso por que estou
preocupado com certas atitudes que a imprensa vem adotando e que passam a
impressão de que o mestre de obras quer fazer às vezes de engenheiro e de
arquiteto, para ficar na comparação inicial de uma obra em construção. Ou seja,
extrapola seus limites de atuação. Não se contenta com o papel de investigar, comunicar
e fiscalizar, fundamentais para uma sociedade que se proponha democrática,
ordeira e progressista, e tenta influenciar, ainda que indiretamente, em seus
espaços midiáticos, as decisões dos governantes, a quem cabe conduzir os
destinos daqueles que nele confiaram o voto, ou induzir seus leitores, ouvintes
e telespectadores, à conclusões precipitadas.
Agora mesmo, em Porto Alegre,
menos de 24 horas após a definição do novo prefeito da cidade, veículos de
comunicação já tratam de questionar o prefeito eleito, cuja posse se dará em 1º
de janeiro, sobre quando irá implantar os projetos e ações anunciadas durante a
campanha. Ora, mal comparando, mas já comparando, é o mesmo que querer
entrevistar um maratonista logo após ele ter cruzado a linha de chegada. Deixem
primeiro o cara recuperar o folego.
É o caso do prefeito eleito.
Deixem o cara buscar a realidade dos números que só quem está no poder pode
saber. E esse desespero pelo lead, pela manchete, em caso de não atendimento
por parte do entrevistado, leva a uma sensação de contrariedade que beira a
arrogância, com feições de prepotência. Ninguém é obrigado a responder o que ainda
não sabe. Se dissesse estaria contrariando uma máxima do jornalismo que é o de
dizer a verdade.
E a imprensa precisa saber lidar
com isto. Afinal, ela mesmo prega que os políticos sejam mais responsáveis com
seus compromissos e suas atitudes. “Chutar” prazos e quantitativos não é ser
responsável. Mesmo que a imprensa pense estar prestando um serviço ou provando
sua independência editorial, é preciso primar pela razoabilidade da pergunta,
sob pena de rotular a resposta como mal educada ou intempestiva.
Aliás, questionar o oportunismo
da pergunta também é um direito do entrevistado. E isso não representa
animosidade contra quem pergunta. Ou a imprensa não pode ser questionada? E é
nessas interpretações equivocadas que surgem estereótipos distorcidos da
realidade. O que é injusto. E injustiça não é atributo da imprensa responsável.
Por isso, é preciso que a
imprensa tome muito cuidado com rótulos e carimbos para identificar alguém. Por
que não dar ao prefeito recém eleito a mesma tolerância dada, por exemplo, ao governador Sartori, nos seus primeiros meses de governo. E olha que ele não
se comprometeu com praticamente nada durante sua campanha. O que é pior,
prometer e ganhar um tempo razoável para cumprir, ou não prometer e fazer muito
pouco? No fundo o fazer é que importa. Criticar antes de ter a oportunidade de fazer
é que, ao meu ver, está errado.
Aliás, posso estar equivocado
nesta minha avaliação e nem por isso vou ficar contrariado com quem dela
discordar. É assim que uma sociedade civilizada se comporta e evolui. Sei que os
porto-alegrenses, por tudo o que estão passando, especialmente nas área da
saúde, segurança e educação, estão com pressa, mas nada justifica que tenham
que receber informações apressadas e imprecisas.

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