A cultura do atraso.
Ishinomaki - Japão
E tudo
começa em casa. Quando a criança dorme demais e acaba se atrasando para a
escola. Depois, já adulto, mantém o habito e acaba perdendo o emprego por
chegar frequentemente atrasado. “Mas o motivo foi o ônibus que não passou na
hora determinada”, alega o mais novo desempregado. Ao botar a mão no salário
desemprego resolve fazer um check up médico para ver como anda sua saúde.
Procura um médico do SUS. Depois de quase um mês aguardando para ser atendido
ele consegue, finalmente, chegar no horário marcado. Mas teve que esperar mais
um pouco, pois as consultas estavam atrasadas. Prescrição dos exames na mão, lá
vai ele novamente para a fila do SUS. Mais espera. Consegue fazer os exames.
Nova espera para conseguir a reconsulta médica. Consegue e sai de lá portando a
receita com os remédios que deve tomar. Nova fila, desta vez para pegar os
medicamentos. Conseguiu a maioria, pois alguns estavam em falta. Teria que
retornar noutra data.
Esse é um
exemplo do que acontece diariamente com milhares de brasileiros. É o embrião da
chamada cultura do atraso. Que começa em casa e se estende por toda a vida.
Talvez seja esse o motivo da paciência que a maioria dos brasileiros tem para a
execução de obras essenciais para as suas vidas. Já virou lugar comum a demora
pela chegada da luz, do saneamento básico, do asfalto, do posto de saúde, do
avião, do trem e muitas outras. Acostumamo-nos com a espera.
Como assim?
Não temos pressa para nos desenvolver? Para melhorarmos nossa qualidade de vida?
Ouvimos nossas autoridades dizerem que o Brasil segue celeremente em direção ao
primeiro mundo, mas a lentidão com as obras essenciais se arrastam mostram que
não é bem assim. Entre a decisão
política de executar uma obra de grande porte até a sua inauguração demora
anos, às vezes décadas. A ponto de torná-las, quando concluídas, obsoletas. Ser
do primeiro mundo é ser como EUA e Japão, que reconstruíram cidades inteiras
(New Orléans e Ishinomaki) em pouco mais de um ano, após terem sido
praticamente destruídas por um furacão e um por tsunami.
E o mais
incrível no Brasil é que nem mesmo as obras para a Copa do Mundo de Futebol,
esporte considerado paixão nacional, serão completamente concluídas até o início
da competição. No Rio Grande do Sul são inúmeras as obras vitais que não
conseguem sair do papel. O metrô de Porto Alegre e a segunda ponte sobre o
Guaíba são algumas delas. Isso sem falar nas obras importantíssimas que foram iniciadas
mas que não se tem a menor ideia de quando serão concluídas, como por exemplo
as duplicações das BRs 116, 290 e 386.
Por tudo isso
é que devemos parar com essa euforia inadequada. Se não conseguimos fazer o
dever de casa como convencer o mundo da nossa pujança? Se for verdade que o
gigante realmente acordou, como dizem os cartazes dos protestos de rua, temos
que fazê-lo se movimentar e ir à luta. Sem perder mais tempo. Enquanto isso quem sabe iniciamos a mudança fazendo com que nossos filhos acordem na hora certa?

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