Um
brado retumbante
Não, não foi apenas uma
cartinha, foi um brado retumbante em defesa da liberdade. Ao invés da “Independência
ou Morte”, grito de indignação dado por D. Pedro I exatamente 200 anos atrás,
representantes dos mais diversos segmentos da sociedade civil lotaram o salão da
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo para defender a democracia e
o sistema eleitoral brasileiro.
Trata-se da repetição de um
ato realizado no dia 11 de agosto de 1977, no mesmo local, e que denunciava a
ilegitimidade do regime militar que governava o Brasil e defendia o Estado
Democrático de Direito e exigia a realização de uma Assembleia Nacional
Constituinte. Pouco tempo após a divulgação da carta o regime militar, na época
presidido pelo general Ernesto Geisel, iniciou a chamada “abertura lenta,
gradual e segura”.
Mas se “o preço da liberdade é
a eterna vigilância”, como bem disse John Philpot Curram (1750-1817), a carta
lida hoje na USP serve de trincheira para defender o país da volta do arbítrio
e do autoritarismo. Inacreditável que, passado apenas 34 anos do retorno das
eleições diretas, a sociedade civil tenha que novamente se reagrupar para impedir
o retrocesso democrático.
Mais incrível ainda é que a tal
ameaça ocorra no momento em que o país luta para sair da maior crise sanitária
da sua existência, já tendo vitimado mais de 700 mil brasileiros, com reflexos danosos
a economia, como a volta da inflação e o aumento da miséria.
Como um governante que se diz temente
a Deus e defensor da pátria e da família pode criar um clima de cisão nacional
quando 33 milhões de pessoas passam fome? Como priorizar a descrença no sistema
eleitoral do seu país quando um em cada quatro jovens brasileiros não trabalha
e nem estuda? Onde cerca de dois milhões e meio de crianças de oito anos ainda não
foram alfabetizadas? Quando mais de 10 milhões de jovens e adultos estão
desempregados?
Como apregoar que o uso de
armas de fogo pela população é a garantia de preservação da democracia quando
armas clandestinas ou furtadas são utilizadas pelos criminosos para sitiar comunidades
inteiras, como acontece nas vilas e nas favelas; nas brigas fúteis de trânsito;
na destruição de lares onde pais e filhos se matam entre si; e muito mais?
Como pode alguém, diante de
tantos desafios, desdenhar da civilidade, opor-se aos direitos humanos, preconizar
a discórdia entre os poderes da União, permitir a destruição do meio ambiente, cooptar
militares e agentes de segurança, formando milícias subalternas; acobertar a
corrupção; mentir descaradamente e rir-se da desgraça alheia? Como alguém assim
pode arregimentar simpatizantes e apoiadores? Como?
Que a carta lançada hoje em
diversas partes do país soe como um rotundo BASTA! O Brasil é pujante demais
para ser apequenado como vem sendo nos últimos anos, a ponto de ser humilhado e
desprezado internacionalmente. É magnânimo demais pelas qualidades de seus
habitantes. Promissor demais pelas suas riquezas naturais. Destemido demais
para se amedrontar com ameaças de déspotas de ocasião.
Que no dia 2 de outubro, ou no
dia 30 de outubro, nas eleições livres e soberanas, o sobro da liberdade e a
brisa acolhedora da democracia nos tragam novamente o orgulho de ser
brasileiro.

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