quinta-feira, 11 de agosto de 2022

 

Um brado retumbante




Não, não foi apenas uma cartinha, foi um brado retumbante em defesa da liberdade. Ao invés da “Independência ou Morte”, grito de indignação dado por D. Pedro I exatamente 200 anos atrás, representantes dos mais diversos segmentos da sociedade civil lotaram o salão da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo para defender a democracia e o sistema eleitoral brasileiro.

Trata-se da repetição de um ato realizado no dia 11 de agosto de 1977, no mesmo local, e que denunciava a ilegitimidade do regime militar que governava o Brasil e defendia o Estado Democrático de Direito e exigia a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte. Pouco tempo após a divulgação da carta o regime militar, na época presidido pelo general Ernesto Geisel, iniciou a chamada “abertura lenta, gradual e segura”.

Mas se “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, como bem disse John Philpot Curram (1750-1817), a carta lida hoje na USP serve de trincheira para defender o país da volta do arbítrio e do autoritarismo. Inacreditável que, passado apenas 34 anos do retorno das eleições diretas, a sociedade civil tenha que novamente se reagrupar para impedir o retrocesso democrático.

Mais incrível ainda é que a tal ameaça ocorra no momento em que o país luta para sair da maior crise sanitária da sua existência, já tendo vitimado mais de 700 mil brasileiros, com reflexos danosos a economia, como a volta da inflação e o aumento da miséria.

Como um governante que se diz temente a Deus e defensor da pátria e da família pode criar um clima de cisão nacional quando 33 milhões de pessoas passam fome? Como priorizar a descrença no sistema eleitoral do seu país quando um em cada quatro jovens brasileiros não trabalha e nem estuda? Onde cerca de dois milhões e meio de crianças de oito anos ainda não foram alfabetizadas? Quando mais de 10 milhões de jovens e adultos estão desempregados?

Como apregoar que o uso de armas de fogo pela população é a garantia de preservação da democracia quando armas clandestinas ou furtadas são utilizadas pelos criminosos para sitiar comunidades inteiras, como acontece nas vilas e nas favelas; nas brigas fúteis de trânsito; na destruição de lares onde pais e filhos se matam entre si; e muito mais?

Como pode alguém, diante de tantos desafios, desdenhar da civilidade, opor-se aos direitos humanos, preconizar a discórdia entre os poderes da União, permitir a destruição do meio ambiente, cooptar militares e agentes de segurança, formando milícias subalternas; acobertar a corrupção; mentir descaradamente e rir-se da desgraça alheia? Como alguém assim pode arregimentar simpatizantes e apoiadores? Como?

Que a carta lançada hoje em diversas partes do país soe como um rotundo BASTA! O Brasil é pujante demais para ser apequenado como vem sendo nos últimos anos, a ponto de ser humilhado e desprezado internacionalmente. É magnânimo demais pelas qualidades de seus habitantes. Promissor demais pelas suas riquezas naturais. Destemido demais para se amedrontar com ameaças de déspotas de ocasião.

Que no dia 2 de outubro, ou no dia 30 de outubro, nas eleições livres e soberanas, o sobro da liberdade e a brisa acolhedora da democracia nos tragam novamente o orgulho de ser brasileiro.

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