Hora de falar sério.
A situação é série demais para que
embarquemos nessa tentativa de transformar uma situação eminentemente policial
num debate político-ideológico. O país já está suficientemente maduro para não
cair nessa armadilha. Tudo o que aconteceu ontem com o Lula precisa ser visto
sob a ótica da normalidade institucional. Sem dramas e exageros.
Ele poderia, por saber que em
algum momento teria que se explicar sob as suspeitas de seu envolvimento, de
sua família e de amigos próximos, em fatos investigados pela Operação Lava
Jato, ter se apresentado espontaneamente para depor. Mas atuou em sentido inverso. Utilizou todos os instrumentos disponíveis (os
divulgados pela imprensa e os não divulgados, descobertos pelo MPF e pela PF) para
evitar ser investigado. Acabou tendo que ser ouvido coercitivamente. Se
explicou e foi embora para casa.
O que se sucedeu após a oitiva é
que resultou no título desse breve comentário. Nas suas diversas manifestações
públicas, incluindo uma entrevista coletiva à imprensa nacional, onde não foi
permitido perguntas, Lula, ao invés de provar com números e fatos a sua
inocência, se posicionou como vítima de um arranjo (denominado por ele como
golpe) para acabar com as liberdades democráticas no Brasil. E que ele, por ser
o legítimo representante dessas conquistas, estaria sendo perseguido e
ameaçado.
Ora. Primeiro que as suspeitas
estão fundamentadas em fatos e provas colhidas pela PF e pelo MPF e não pelos
partidos de oposição. Se houve componente político foi a suspeita de inclusão
do seu próprio partido como beneficiário das ilegalidades financeiras que estão
sendo descobertas.
Segundo que, por mais que Lula se
intitule o líder dos líderes, e as pesquisas de opinião não lhe conferem tal
destaque, isso não o torna diferente de qualquer outro brasileiro no que tange
a obediência aos preceitos constitucionais. Até porque um líder de verdade só
dá bons exemplos.
Além disso, ao tentar recuperar a
antiga estratégia política da luta de classes, numa contradição aos seus
discursos e aos discursos de Dilma, de que o Brasil da era PT havia acabado com
a fome e a miséria, Lula tenta criar um perigoso clima de instabilidade civil e
institucional. Além do que ele próprio é o exemplo, como ele mesmo cansou de
dizer, de que um simples operário pode chagar à presidência da República,
desfrutando de todas as beneficies do cargo. E não foi nem ele e nem o PT que
lhe garantiram esse direito. Foram os que os antecederam.
Pois é justamente essa origem
humilde que Lula pretende utilizar como fator motivacional nas manifestações de
rua que pretende comandar, segundo ele, país a fora. Mas como se isso já ficou
no passado, e todos sabem e veem isso claramente no seu modo de vida, agora
mais ainda pelas investigações em curso?
Pode-se chamar Lula de tudo,
menos de esquecido. Em suas palestras (sabe-se agora, por ele mesmo, as mais
caras do mundo) e pronunciamentos ele se transforma num computador humano com
um HD riquíssimo em detalhes de fatos, nomes e datas. Então ele deve se lembrar
de quando imputava aos grandes empreiteiros a pecha de sanguessugas dos recursos
públicos. Pois bem, bastou a realização da Operação Lava Jato para se saber que
Lula não só mudou de ideia como se tornou íntimo dos empreiteiras, a ponto de
receber “presentes” vultosos e o pagamento por suas caríssimas palestras.
Pois bem, para finalizar,
gostaria que todos pensassem o seguinte: Dinheiro público é recurso advindo do
pagamento de impostos e no Brasil todos sabem, inclusive Lula, quem mais paga
tributo é a classe média e baixa. Ou seja, quando um dinheiro público é
ilegalmente desviado para fins ilícitos, é do bolso dos que possuem menor poder
aquisitivo que ele está sendo tirado.
E mais, cabe ao Poder Público
administrar recursos públicos, executando obras e serviços que beneficiem,
mediante retorno do desembolso tributário confiscado, a melhoria da qualidade
de vida da população, especialmente saúde, educação, segurança e emprego. Por
isso quando alguém, sob o manto da legalidade institucional, se aproveita do
cargo ou da influência sob quem os ocupa, para se locupletar indevidamente dos
recursos do erário, ele está traindo a confiança do contribuinte. Em outras
palavras, do povo.
Como então, diante das suspeitas
publicamente divulgadas pela PF e pelo MPF, Lula pode querer usar o argumento
de que por ter sido um dia pobre ele tem o comando da vontade da maioria dos
brasileiros. Trata-se de uma estratégia de alto risco. Basta ver que quem saiu
às ruas para protestar contra a sua forçada oitiva foram tão somente petistas e
simpatizantes. E assim mesmo em número reduzido. A multidão de pobres e
trabalhadores, tido por Lula como seus fiéis seguidores, não se movimentou.
Ao invés de bravatas e ameaça de
convulsão social, Lula e o PT deveriam se preparam para os embates jurídicos
que obrigatoriamente ocorrerão. Afinal, quem não deve não teme. Ou será que é
justamente por isso que os apelos do ex-presidente e do seu partido são mais emocionais
do que racionais?
Provar a inocência nas ruas,
Lula? Fala sério!

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